BREVE TRATADO SOBRE O FUTURO DE VALE DE CAMBRA – II

Escrever um Breve Tratado sobre o Futuro de Vale de Cambra implica sempre um exercício atento à realidade e características do nosso território e, naturalmente, a identificação de questões e áreas-chave para o mesmo. O exercício que se pretende fazer nesta crónica é identificar o principal problema de Vale de Cambra que, não sendo um exclusivo da nossa terra, tem um grande impacto na mesma e no seu futuro.

O problema a que me refiro é, claro está, a DEMOGRAFIA. Se Vale de Cambra é um território pioneiro, capaz de criar e produzir os mais complexos produtos, deve tal às suas gentes, os cambrenses. Pensar o Futuro de uma terra implica, e mais ainda na nossa terra, assegurar que a mesma continua povoada por cambrenses, por este ADN de gente empreendedora, de trabalho e de valores. Uma análise aos vários concelhos do nosso país permite-nos tirar várias conclusões: a) este não é um problema exclusivo de Vale de Cambra, b) a existência de ensino superior não é uma garantia absoluta de crescimento populacional, c) a existência de oferta de emprego, que tanto caracteriza o nosso concelho, também não é suficiente para combater este flagelo. Destas três conclusões pretendo destacar a palavra flagelo, usada com a plena noção de que é disso que se trata. Ao longo dos últimos 20 anos, sucessivamente, temos assistido a um êxodo da nossa população, por razões várias, para fora de Vale de Cambra. Em 20 anos perdemos 3336 habitantes, uma quebra de 13% que, mostram os indicadores, não dá sinais de paragem.

Mas queria também destacar que a quebra populacional que vivemos tem que ser combatida com um plano estratégico com objetivos a curto, médio e longo prazo. 

Um plano onde situações como a criação de cursos técnicos e industriais, pensados e desenhados em conjunto com a indústria cambrense pode contribuir para reter população e captar população de outros territórios. O ponto que se pretende vincar, é que apenas com uma oferta formativa que cria valor acrescentado, independentemente de fornecer um grau académico universitário, é que conseguiremos posicionar o nosso território no campo formativo, isto é, mais que licenciaturas, oferecer boa formação técnica e empregabilidade adequadamente remunerada nas nossas empresas.
Esta oferta formativa, pode facilmente ser desenhada e implementada, com um estudo às necessidades formativas das empresas da nossa região.

O retorno assume várias formas:
1.    Posiciona Vale de Cambra como um território atraente do ponto de vista formativo;

2.    Garante às empresas acesso a mão de obra especializada;

3.    Permite, no curto e médio prazo, estabilizar a perda de população pela vinda de novas pessoas para estudarem no nosso território;

4.    Estimula o comércio local e o setor dos serviços, com a vinda de novas pessoas;

5.    Promove a criação de políticas de apoio ao arrendamento acessível.

Mas, se a oferta formativa pode ser uma medida de combate no curto e médio prazo, a mesma precisa de ser acompanhada de outras medidas, em áreas que se entrelaçam com a questão da demografia. 
Ao longo dos próximos meses abordarei os temas que considero mais vitais para o território e que se entrelaçam neste problema maior que Vale de Cambra enfrenta, a destruição do seu bem mais precioso, os cambrenses. 

Ter a noção do quão grave é este problema, exige também que se indiquem caminhos e se deem contributos para o combater. Mas o facto de este ser um problema global não pode ser uma escapatória para o ignorarmos. A nível nacional, encontramos verdadeiros casos de estudo, de territórios como o nosso, inseridos em áreas metropolitanas, que crescem de forma extraordinária, dando o exemplo de Sobral de Monte Agraço e de Mafra a 50km de uma grande cidade, Lisboa, cresceu nos últimos 17 anos, respetivamente, 26% e 53%.

O grande desafio que se coloca a Vale de Cambra é saber posicionar-se no seu território como um concelho diferenciador, criador de valor acrescentado, e com um conjunto de serviços e políticas públicas favoráveis à vinda de novas pessoas para a nossa terra. Mas também, para aqueles que resilientemente não deixam Vale de Cambra, deve a nossa terra ser capaz de criar condições e estímulos para essa permanência. Para registo fica, uma vez mais, o número 3336. O número de cambrenses que já não estão em Vale de Cambra.

— Tiago Fernandes
Jurista

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