Clara Vide: “O Cruzeiro de Rôge é um dos monumentos religiosos mais significativos do concelho de Vale de Cambra”

No campo das Armas da freguesia de Roge, um cruzeiro, de prata, é representativo do Cruzeiro Paroquial, o monumento mais emblemático da freguesia, signo dos seus valores patrimoniais, que se apresenta, do ponto de vista artístico, como um dos monumentos religiosos mais significativos do concelho de Vale de Cambra.

Implantado ao fundo do adro da Igreja Matriz do Santíssimo Salvador, em lugar de destaque, o cruzeiro é uma belíssima peça de arte, edificada no século XVIII, no período do barroco final ou joanino, que corresponde grosso modo ao reinado de D. João V, O Magnânimo. Veiculando a mesma linguagem decorativa da fachada da igreja, forma com ela um conjunto singular, que é um dos melhores exemplares existentes na região.

Classificado como Imóvel de Interesse Público pelo decreto n.º 373666 de 05-04-1944, o cruzeiro está considerando “o melhor exemplar da sua tipologia em todo o país”[1], e já em 1758, o prior João Abreu, que redigiu as Memórias Paroquiais da freguesia, o descrevia do seguinte modo, a propósito da sua igreja: “(…) E no adro tem hum cruzeiro de pedra lavrada com bastante miudeza, que he dos mais primorosos q. se hamde encontrar em toda a província ou em todo o Reyno”[2].

O Cruzeiro, com cerca de 14 m de altura, assenta sobre plataforma de quatro degraus oitavados com focinho, sobre a qual se posicionam quatro crianças-atlantes desnudas e só com um laço ondulante, que sustêm o pedestal, paralelepipédico, formado por soco, dado e cornija, exibindo o dado em cada uma das faces, dentro de molduras, um busto infantil entre dois ramos curvos. Sobre a cornija recai a coluna, de fuste cilíndrico e capitel de feição coríntia. A coluna exibe sobre a sua base um fuste diferenciado, que é ornado no terço inferior com enrolamentos e ferragens que se cruzam, aprisionando crianças desnudas e aves, e a parte superior trabalhada em fortes losangos, estudados em rede geométrica de quatro linhas helicoidais cruzadas, dando só uma revolução cada uma delas, sendo cada losango decorado com um botão floral. Sobre o capitel, de folhas de acanto e volutas, a coroar o monumento, um soco de faces curvas, com uma esfera sobre a qual surge a cruz, de braços quadrangulares e terminações florais.

O Cruzeiro Paroquial de Roge, foi derrubado pelo temporal de 13 de Dezembro de 1945, o cruzeiro permaneceu algum tempo esquecido, até que devido aos esforços do Rev. Joaquim de Oliveira Maurício e da Junta de Freguesia, o pedido da sua reconstrução foi deferido pelo Governo de António Salazar e entregue à Direcção‑Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais que, em 1947, procedeu às obras de consolidação e restauro do cruzeiro. As obras ficaram a cargo do arquitecto Baltazar de Castro, que contou com o auxílio dos mestres canteiros, Manuel e Aníbal Brandão, naturais da freguesia. Nesta altura foi possível proceder à leitura da data de 1762, inscrita em dois ferros que pertenciam á estrutura interna do monumento. Esta data, porém, não corresponde à da erecção do monumento, porque o mesmo já é referenciado em 1758 nas Memórias Paroquiais, podendo corresponder a uma intervenção nele realizada.

O conjunto patrimonial – Igreja/Cruzeiro – perfilhando da mesma linguagem artística – o barroco joanino ou final – constitui um elemento referencial da comunidade a que pertence, de que também é elemento de identidade e testemunho da crença e das vivências sócio religiosas. Manifestando um gosto alinhado com as correntes artísticas da época, que revela a intervenção de um mestre canteiro conhecedor dos cânones estéticos vigentes, é, igualmente, revelador da vitalidade económica desta freguesia na centúria de setecentos.

Clara Vide, investigadora.

[1] DGEMN-Direcção Geral dos Monumentos e Edifícios Nacionais

[2] Memórias Paroquiais de Roge

 

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