O Tição de Natal: – Seu Poder e Magia.

Conto Serrano(1).

  1. A Manhã, do Dia de Consoada.

Naquela manhã, do Dia de Consoada, de finais da década de cinquenta do século XX, a tia Madalena acordou cedo em Viadal, lá para as faldas da Serra da Freita.

Então, já as “vacas paiveiras” esperavam por um braçado de pasto verde, enquanto a dona as ordenhava; a fim de dar o almoço(2) à família. Como, na véspera,  tinha cozido broa deliciaram-se todos com o leite acabado de mungir, colocado numas malgas grandes a que acrescentaram pedaços do pão fresco.

Já o seu homem, conhecido pelo tio Fernandes, madrugador que era, tinha ido à ribeira, ao Chão do Moinho, na Corga do Barroco, merujar uns lameiros e certificar-se que o engenho(3), da presa, funcionava em pleno.

 

  1. O Nevão, na Freita.

Apesar da brisa fresca que a camponesa sentiu na cara, ao sair de casa, nem se lembrou de espreitar lá para cima, para a serrania;  de tão atarefada que estava com a preparação da ceia de natal.

Deixado o curral dos animais,  é então que olha para a Freita e, espantada, vê o solo todo coberto de neve. Apesar de não ser novidade, o nevão surpreendeu-a. Na aldeia, se nevou, foi pouco e durante a noite;  daí o não ter dado por nada.

Talvez por alguma neve já então derreter, o caudal de água, da Frecha da Mizarela(4),  tinha aumentado imenso; sendo perfeitamente visível, a olho nu, cá de baixo. Audível era também o seu zumbido, bem como o do rio Caima, que, devido à invernia recente, galgava as margens.

 

  1. O Cheirinho a Rojões.

Como o tempo arrefecera, o tio Fernandes já tinha providenciado, com a ajuda dos vizinhos, a matança do porco. Esquartejado o bácoro, grande parte tinha ido para a salgadeira e a carne melhor, a do lombo, destinada a rojões.

Eram para aí umas onze horas quando a rua, então chamada de caminho, ficou impregnada de um cheirinho intenso, a carne frita. Eram os pedaços da febra, com alguma gordura, que derretiam ao lume, num grande tacho de cobre. Alguns até já boiavam no meio da banha liquefeita.

Diga-se,  em abono da verdade, que noutros lares, ali à volta, a cena se repetia, ou não estivéssemos no Natal. Era tão ativo o aroma que até a tia  Emília, a sua vizinha, assomou ao cancelo(5) e saudou:

 

– “Benza cá Deus, tudo”!.(6)

– “Venha com Deus”, tia Emília,  falou a dona da casa.

Depois, pensando também no marido, o tio Armindo, inquiriu:

–  “Ò Madalena, há lugar, à masseira(7), para mais dois?”;

–  “Há, sim, tia Emília!. Conto com vocês para a janta!”, respondeu;

E assim foi. Comeu-se rojoada da boa, regada a americano(8), da lavra do anfitrião. A carne que sobrou foi guardada num púcaro de barro, coberta com o pingue, para os dias vindouros; nomeadamente para a visita inesperada de algum parente, das redondezas. Era então só aquecer alguns dos nacos ou desfiá-los e cozinhar  um arroz delicioso; que até um aspirante a escriba, conhecido lá na terra, gostaria, ainda hoje, de voltar a saborear.

 

  1. O Carvalho Cerquinho.

Existe nas matas da Freita, para além do carvalho comum, uma variedade chamada de cerquinho. Seria abundante noutros tempos, mas agora é rara. São-lhe atribuídos poderes extraordinários, diríamos mágicos, nomeadamente os de amainar as trovoadas. Para tanto, as suas pernadas – os tições – devem ser cortadas, nas vésperas de Natal e sempre depois do pôr do sol.

Era, ao tempo, tarefa dos rapazes(9); já que estes, mediante encomendas ou por chegarem primeiro às casas dos habitantes que não podiam ir decepar o madeiro, davam uma guloseima aos garotos. Não admira, por isso, que não faltassem candidatos à recolha e fornecimento dos ditos paus. Um deles, era o Manel, aí com uns oito anos,  filho dos lavradores Madalena e Fernandes, já nossos conhecidos.

 

  1. O Manel trepa ao Cerquinho.

Todo entusiasmado, naquele fim de  tarde, o Manel, preparou o podão e fez-se ao bosque, em busca da tão desejada árvore. Não lhe foi nada custoso encontrá-la. Para tanto, tinha tido a ajuda do pai, bom conhecedor da floresta e dos caminhos e carreiros que levavam ao cerquinho, previamente selecionado.

Foi, também, sem grande esforço, apesar da altura, que trepou o carvalho e decepou algumas das suas trancas.

Difícil foi, sabia-o por experiência anterior, bater a concorrência.

Com efeito, constava que havia,  por lá,  alguns maraus que não esperavam pelo ocaso do sol. Ainda este ia alto e eles já vinham,  às escondidas, com as arrancas do carvalho.

Seguro é que o  Manel não era desses. Tradição era tradição e, para ele, isso era sagrado, sabemos-lo de boa fonte. Também, pouco valia, aos outros,  irem bater a determinadas portas, a perguntar:

–  “Tia….  já tem tição de Natal”?

–  “Já sim, meu menino. Deus te dê saúde!”, respondiam.

Dali, não levavam nada. Uma era a da tia Emília, a dos rojões, que já tinha sempre guardada uma regueifita, comprada na feira dos 23, na Gandra, para o “seu” Manolito. Meu Deus, que paladar, disse-nos ele!

 

  1. O Bacalhau da Ceia de Natal.

 

Quando o miúdo regressou à povoação já era escuro. Porém, o odor intenso a bacalhau cozido, juntamente com as batatas e couves tronchas, não deixava errar as portas dos vizinhos e familiares;  sobretudo daqueles em que sabia que havia presente garantido.

Alguns, também, davam uns trocos, então ditos de tostões; que escudos era raro vê-los, apesar do lenho ter grande valimento, como veremos.

 

  1. O Tição de Natal e o seu Poder e Magia.

Vá-se lá saber as origens de tão misteriosa e extraordinária crença.

Verdadeiro é que, enquanto se ceava o bacalhau, seguido de aletria, mexida com um pau de figueira seco, e se beberricava um pouco de vinho fino(10), a tranca do carvalho cerquinho era posta a queimar, na lareira, nomeadamente a sua parte mais fina. Finda a refeição era apagada, molhando-se-lhe a ponta.

Nas noites seguintes, e à mesma hora, preferencialmente,  aquando da reza do terço, a prática repetia-se até ao Dia de Reis.

Terminado o prazo, apagava-se de vez e guardava-se a bom recato. Sempre que se avizinhava trovoada, acendia-se e, quando a ponta estava em brasa, era colocada atrás da porta de entrada da habitação.

 

  1. A Grande Trovoada.

Está bom de ver, foi mera coincidência. Mas o certo é que, lá para as 8  horas dessa noite de Natal, começou a ouvir-se trovejar: – primeiro sobre o mar, lá para os lados da Torreira; depois na Freita e outros montes à volta do vale de Cambra.

Nisto, a ordem veio célere do chefe da família:

–  “Manel, vai depressa, à loja(11), buscar o Tição de Natal, que vamos ter tempestade.”

– “Mas, meu pai, está ali ao lume”, retorquiu o gaiato.

– “Não rapaz, o do ano passado. Este só agora foi posto a queimar”.

Num instante, antes que chovesse, já o anterior tição estava a ser chamuscado. Feito isto, foram os dois paus, com as pontas em brasa e a deitar fumo, colocados atrás da porta, já devidamente fechada; que trovoada, chuva e ventania na Freita são para respeitar.

É então que, por cima do Santuário da Senhora da Ouvida e da aldeia, se ouve o ribombar de um grande trovão, que parecia adivinhar o fim do mundo.

Nisto,  a tia Madalena, a mãe do Manel, já com o terço na mão, diz em voz alta, ao que foi acompanhada por todos os presentes: – “S. Jerónimo e Santa Bárbara é Virgem”; seguindo-se  a seguinte prece, alguns de joelhos, a estes dois santos(12):

– “S. Gregório se  levantou, numa bengalinha pegou e Nossa Senhora lhe perguntou:  – Para onde vais Gregório?

– Vou arrumar a trovoada, arrumá-la bem arrumada, para onde não haja pão, vinho, nem eira, nem beira, nem folhinha de figueira, nem pedrinha de sal

ou coisa que faça mal”.

Terminada esta oração, foi ainda  rezado mais um Pai Nosso e uma Ave Maria a Nossa Senhora da Ouvida, a padroeira da aldeia; que, por ter o seu santuário, lá ao cimo, era sempre invocada e bem, nestas ocasiões.

 

  1. A Bonança Total.

Findas as prédicas religiosas, o chefe da casa, arredou os tições, abriu a porta e, encostado ao cancelo, mirou o céu. Ao faze-lo,  ficou estupefacto! Já se viam as estrelas, não chovia  e o vento tinha amainado, na totalidade. Não se conteve e exclamou: – “Venham ver isto! Até parece milagre! Está tudo calmo!”.

Num repente, todos vieram para o caminho, donde se vislumbrava o horizonte, da Freita ao Atlântico. Aí, o Manel, admirado,  disse:

– “Realmente parece um milagre, meu pai!”.

Todos concordaram, sobretudo a sua mãe que, por ser crente, propôs que se rezasse mais um Pai Nosso, em louvor de todos os Santos. E, assim, orando, regressaram à roda da lareira.

 

  1. A Missa do Galo.

Por ser então tanta a calmaria, houve, na aldeia, quem se aventurasse, apesar de ser longe, a ir a pé, à igreja matriz, assistir à Missa do Galo. Um deles era o tio Zé do Grilo(13) que não falhava “à missinha”, a não ser por doença. Não admira a sua devoção e boa forma física; pois se já tinha sobrevivido, em 1918,  às trincheiras da Flandres, fácil era-lhe ir, nessa noite, a Cepelos.

O celebrante foi o Padre Correia, acolitado por dois seminaristas da freguesia e que tinham vindo passar as férias de Natal, com os seus familiares. Foi emocionante o sermão, já que, no dia seguinte, aquando da eucaristia em Viadal, o ex-Combatente não se cansou de fazer-lhe elogios.

 

11.Epílogo:

Com toda esta emoção, posta na narrativa, quase nos íamos esquecendo dos “Tições de Natal” e do nosso Manel.

Ora, os tições, confirmado o seu contributo para o fenómeno acabado de vivenciar, foram apagados e guardados, com todo o respeito, em sítio apropriado.

Continuaram a ser muito úteis, sobretudo no mês de Maio; tempo de grandes trovoadas, por aquelas bandas.

Quanto ao Manel, foi-se deitar; logo que liberto das preces religiosas, pela mãe, que o dia tinha sido longo.

Passou, no entanto,  a noite a sonhar com o presépio(14) na Nossa Senhora da Ouvida,  cujo azevinho(15), muito direito e cheio de contas encarnadas, tinha ido cortar com o pai  uns dias antes. Até  via o arbusto, meio torto,  a  Sagrada Família desalinhada e  o burro longe da manjedoura. Isto não era propriamente mentira, dado o pouco jeito do seu progenitor, para aqueles afazeres.

Preocupado, estava mesmo, com o latim que tinha de debitar, logo às 8 horas,  do dia seguinte,  enquanto ia ajudar o padre Correia na celebração da missa de Natal, em Viadal; mas essa já é outra “estória”.

Queluz,  Novembro de 2018.

Manuel

 

Anotações:

(1) – Este conto é baseado em personagens, locais e factos verdadeiros.

Como decorreram umas seis décadas, após os acontecimentos relatados, referimos, aos leitores,  que alguma da terminologia pode não ser imediatamente percetível, nomeadamente no que respeita aos horários das refeições. Pedimos assim, em caso de dúvida, que sejam tidas em atenção as outras “notas” de rodapé.

(2) – Equivale ao pequeno almoço, nos dias de hoje.

A refeição do meio dia era o jantar. A ceia ao cair da noite. Mata-Bicho, cerca das 10 horas da manhã e merenda a meio da tarde.

(3) – Pedra com cerca de um metro de altura, com dois buracos paralelos, na vertical, usada nas presas para as esvaziar, quando cheias. Funcionava por si. Ainda lá está o dito engenho, sem uso, há muitos anos, sabemos-lo.

(4) – Queda de água, com cerca de 80 m de altura, próximo da nascente do rio Caima, junto a Albergaria das Cabras.

(5) – Meia porta, com aldraba; que deixava penetrar  a luz e impedia a entrada de animais, sobretudo galinhas, então abundantes pelos  caminhos.

(6) – Outras formas de saudação: – “Deus vos salve ou Vos dê saúde”, ao que se respondia com o habitual: – “Venha ou vá com Deus”.

(7) – O mesmo que mesa. A masseira, colocada na cozinha, por ter pernas e tampa em madeira, era usada como mesa, aquando das refeições.

(8) – O mesmo que vinho morangueiro. Era então abundante nas aldeias da Freita. Crescia em latadas.

(9) – A prática ainda se mantém, na atualidade, embora com menor entusiasmo.

(10) – O mesmo que vinho do Porto.

A rojoada era normalmente acompanhada de papas de milho, cuja confeção se encontra descrita na Monografia de Viadal. (in, jornal Paroquial de Cepelos Ecos do Povo).

(11) – Adega e local de guarda de pertences agrícolas.

(12) – Existem e são veneradas, na ermida de Viadal, as imagens de S. Jerónimo e de Santa Bárbara. Foram ofertas de Estêvão Tavares Coutinho de Viadal. (in, Monografia de Viadal e Letrados da Serra, textos a disponibilizar, pelo autor, logo que viável).

(13) – Nasceu em Viadal em 1895. O pai, Francisco de Almeida era de Paço de Mato e a mãe, Maria Tavares, de Viadal.

Para a sua participação na I Guerra Mundial, ver a VC da Segunda Quinzena de Setembro de 2015. O artigo é do seu neto Manuel Álvaro de Almeida Santos.

(14) – Veja-se, pela foto, a beleza do  atual presépio; agora sob  a orientação do Alberto, o outro filho do tio Fernandes e tia Madalena.

(15) – Aqui chamado de gibarbeiro.

 

NOTA GERAL:

Mais contos,  deste autor,  podem ser encontrados no quinzenário A Voz de Cambra,  no site ADCRA.Viadal ou no blog RIBACAIMA.COM, nomeadamente:

. O Enigma da Pedra do Cestes.

. A Brincadeira das Bruxas (VC de 25 Set. de 2010).

. O Tesouro da Fonte de Gatão;

. No Moinho de Tabaçó e/ou As Tias Rosa e Joaquina e a Pomba Mensageira;

. O Tardo em Tabaçó;

. A Estrada dos Caramuleiros;

. A Pastorinha Encantada;

. As Bruxas da Mina da Defaifa, entre outros.

 

Fotos:

Tia Emília e tio Armindo. Ano de 1970.

Presépio de Viadal, ano de 2015. Foto da autoria da prof. Lealdina Brandão Almeida.

 

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