Simulacro revela: Felgueira em Castelões é uma das aldeias com maior risco de incêndio em 2019

Projeto “Aldeias Seguras, Pessoas Seguras”

O sino toca em sinal de perigo iminente na aldeia da Felgueira, em S. Pedro de Castelões, Vale de Cambra. O incêndio põe em perigo os cerca de 50 habitantes da aldeia, na sua maioria idosos. Foi só um simulacro, mas podia bem ser real, tendo em conta, a sua localização geográfica e uma extensa monocultura de eucaliptos adultos.


Cristina Maria Santos

 

Os dois oficiais de segurança fazem a chamada e as pessoas são encaminhadas para a capela da aldeia. Faltam pessoas. Mas sabem quem são, onde moram e que têm dificuldade de locomoção. Guiam a GNR e os bombeiros, que já chegaram ao local, e depressa retiraram um acamado, de 91 anos, que não tinha outra forma de chegar ao local de abrigo, já assinalado no plano de evacuação.

Com a ajuda da GNR e dos bombeiros, o Oficial de Segurança, assegura-se que não fica ninguém para trás. Manuel Tavares foi um dos que coordenou esta ação, um habitante escolhido, para a segurança e a evacuação da Felgueira — aldeia da freguesia de S. Pedo de Castelões, concelho de Vale de Cambra — em caso de incêndio, por conhecer bem a população e toda a zona envolvente.

“Toquei o sino, bati nas casas todas para saber se ainda havia pessoas em casa e encaminhei-as para a capela”, declarou. Almerinda Tavares foi também escolhida para oficial de segurança e a ela também coube alertar para a ameaça de incêndio, organizar a evacuação dos habitantes e garantir que ninguém fica para trás. Feita a verificação da lista, foi tirada a conclusão.

“As pessoas que faltam, encontram-se fora da aldeia. São assim 40 pessoas, não há ninguém em casa, não há ninguém em perigo”.

É altura de avaliar as fragilidades desta ação e voltar a aferir os mecanismos de sensibilização e aviso à população. “Sendo uma primeira vez, os 20 minutos verificados neste simulacro, não estão mal, mas gostaríamos que isto fosse encarado com mais responsabilidade, pelos seus agentes e população”, revelou o comandante dos Bombeiros Voluntários de Vale de Cambra, no simulacro realizado no dia 1 de março.

Vítor Machado explica a importância de prevenir todos os comportamentos de risco.

“As pessoas nem sempre encaram da melhor forma a evacuação e, mesmo em situação real, a população quer ficar para trás, proteger os seus haveres, mas nada consegue superar a vida humana”, referiu o responsável.

Dorinda Tavares, lembra-se bem do incêndio que houve naquela aldeia, que durou vários dias e que deixou a população a temer pela sua vida e seus bens.

“Receei pela vida. Fiquei toda a noite a pé, era tanto calor, com tanto mato à nossa volta a arder. Eu não saí de casa. Queria salvar a minha casa”, frisou a habitante de 76 anos. “Aquelas pessoas que ficam reticentes em sair, mesmo estando a falar de uma simulação, devem-no fazer, porque numa situação real de incêndio como já aqui aconteceu, ninguém ficou para trás.

Não houve perdas, mas tivemos cá uma equipa de bombeiros retida na aldeia, perto de sete horas, porque as duas únicas acessibilidades ficaram cortadas pelo fogo.”, reforçou o comandante dos Bombeiros. Este foi o primeiro simulacro realizado, este ano, no âmbito do programa “Aldeias Seguras, Pessoas Seguras”.

S. Pedro de Castelões está na lista de freguesias em risco de incêndio em 2019, sendo considerada por um estudo do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), como prioritária para defesa da floresta contra incêndios neste ano.

“Geograficamente, a aldeia está num ponto que consideramos bastante complicado. Neste momento, a envolvente está com uma carga brutal. Numa escala de dificuldade 0 a 10, esta aldeia situa-se nos 10, pela sua localização geográfica que fica abaixo de uma cumeada de serra e depois porque tem uma monocultura de eucaliptos adultos”, admitiu Vítor Machado.

“Esta aldeia é, neste momento, uma zona vermelha de Vale de Cambra, entre muitas existentes no concelho”, considerou.

Faz todo o sentido a implementação deste programa nesta Aldeia, garantiram as forças da proteção civil ali presentes. Vera Silva, da proteção civil da Câmara de Vale de Cambra lembra que este projeto envolve uma componente de trabalho muito grande, mas que não se pode mudar o ordenamento do território num ano, nem em dois.

“Temos de trabalhar de forma a minorar os problemas”, admite. O presidente da Câmara de Vale de Cambra recorda que têm sido implementadas no concelho, uma serie de requalificações de acesso à floresta, mas o concelho é vasto. 

“Estamos a falar de um concelho que tem cerca de 120 km2 de floresta e o que tem sido feito é criar boas condições para que os Bombeiros e os GIPS lhe possam aceder”.  O autarca recorda o “grande incêndio” que aconteceu no concelho, em 2016 e que, mesmo com menos ocorrências, em 2017 e 2018, pretende que Vale de Cambra esteja “permanentemente desperto, em alerta, no sentido de minimizar os riscos dos fogos florestais”.

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Estatísticas preveem 3.000 hectares de área propicia a incêndios   

Vítor Machado alertou também para os 3.000 hectares de área florestal propícios a incêndios, neste ano. “O concelho está muito verde. É uma mancha verde continua. Temos tido alguns incêndios, mas normalmente ficam nos limites, o que aconteceu em 2017, com a parte norte do concelho. Mas, neste momento, estamos rodeados de uma mancha verde e com uma continuidade brutal”. “Diz-nos as estatísticas das ocorrências e isto desde 2003, 2005 e 2010, que, quando temos aqui o período de carência de áreas ardidas, que costumamos ter incêndios para mais de 3.000 hectares. Para um concelho com cerca de 9.000 hectares florestais, são incêndios enormes”, disse.   

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