{"id":361,"date":"2020-04-22T00:00:00","date_gmt":"2020-04-22T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/avozdecambra.pt\/?p=361"},"modified":"2020-04-22T11:12:56","modified_gmt":"2020-04-22T11:12:56","slug":"da-filosofia-natural-o-homem-e-a-terra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avozdecambra.pt\/?p=361","title":{"rendered":"DA FILOSOFIA NATURAL &#8211; \u201cO HOMEM E A TERRA\u201d*"},"content":{"rendered":"\n<p>Diz-se frequentemente que os historiadores est\u00e3o condenados a verem repetir-se tr\u00e1gicos eventos ao longo das suas vidas, pois ao estudarem a Hist\u00f3ria da Humanidade, e conhecendo o complicado enredo das ac\u00e7\u00f5es humanas na civiliza\u00e7\u00e3o, prev\u00eaem, quase invariavelmente, por culpa de nossa casmurra natureza, os crassos erros que cometeremos, esses que j\u00e1 foram cometidos copiosamente. \u201cA incompreens\u00e3o do presente nasce fatalmente da ignor\u00e2ncia do passado\u201d (Marc Bloch). Mas, dentre os s\u00e1bios que se inteiram do Mundo, tamb\u00e9m os cientistas sofrem dessa frustra\u00e7\u00e3o, porquanto os detalhados registos, te\u00f3ricos e num\u00e9ricos, que t\u00eam enriquecido e aperfei\u00e7oado durante centenas de anos, mostram conclus\u00f5es infal\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando, em 1800, Alexander von Humboldt (1769 \u2013 1859), pai da Hist\u00f3ria Natural e pioneiro da Ecologia Moderna, chegou ao lago Valencia, na Venezuela, para estudar a sua Natureza, recolhendo dados biol\u00f3gicos, geol\u00f3gicos e climat\u00e9ricos, foi confrontado com os relatos dos habitantes locais, que lhe diziam que os n\u00edveis da \u00e1gua do colossal corpo de \u00e1gua estavam a cair rapidamente. Ao que parecia, importantes \u00e1reas de terra, que h\u00e1 apenas algumas d\u00e9cadas estavam submersas, tornaram-se em campos densamente cultivados. Seria talvez tentador afirmar que, se o local tivesse passado um longo per\u00edodo de tempo sem receber chuva, a \u00e1gua do lago teria escorrido por um qualquer efluente, contribuindo para a perda do vital l\u00edquido. No entanto, o lago Valencia n\u00e3o possui sa\u00eddas para o mar, \u00e9 o \u00faltimo destino de alguns riachos que o alimentam, pelo que os seus n\u00edveis de \u00e1gua s\u00e3o influenciados apenas pela evapora\u00e7\u00e3o. Embora os habitantes acreditassem numa hipot\u00e9tica fenda no fundo do lago, argumento meramente especulativo que encontraram para explicar o fen\u00f3meno, Humboldt olhou em seu redor e convenceu-se de que a resposta estaria ao seu alcance: para al\u00e9m de ter observado que nos n\u00edveis superiores dos ilh\u00e9us, que graniam o interior do grande lago, espraiavam-se areais de gr\u00e3os extremamente finos, confirmou que o mesmo acontecia nas margens dele. Ao ter calculado a taxa de evapora\u00e7\u00e3o m\u00e9dia anual em rios e lagos por todo o mundo, aferiu que a perda de \u00e1gua daquele caso espec\u00edfico n\u00e3o seguia, propriamente, um ritmo normal, tendo em conta as circunst\u00e2ncias clim\u00e1ticas envolventes. \u201cAs nossas terras est\u00e3o a secar! As nossas culturas est\u00e3o a definhar! A fome poder\u00e1 instalar-se!\u201d, ter\u00e3o dito os locais a Humboldt. O dedicado cientista descobriu, ent\u00e3o, que alguns dos riachos que desaguavam no lago Valencia, haviam sido desviados para regar os campos de cultivo. Demais, \u00e0 medida que o Homem ia destruindo a luxuriante floresta para instalar a agricultura, os solos come\u00e7aram a ficar expostos, e, progressivamente, em maior quantidade, aos agentes erosivos. Por j\u00e1 n\u00e3o haver \u00e1rvores que sombreavam os terrenos, o solo secou, queimou, esterilizou-se; os musgos e a manta morta j\u00e1 l\u00e1 n\u00e3o estavam para reter a \u00e1gua, e o sistema radicular de grandes e pequenas plantas, que seguravam a terra no s\u00edtio, haviam perecido com a sua parte a\u00e9rea. Humboldt desabafou no seu di\u00e1rio que os primeiros colonos tinham \u201cimprudentemente destru\u00eddo a floresta\u201d. Apresento, portanto, ao meu caro leitor, uma mente ambientalmente consciente do in\u00edcio do s\u00e9culo XIX. Isto como prova de que a no\u00e7\u00e3o fundamental sobre a import\u00e2ncia do equil\u00edbrio ecol\u00f3gico n\u00e3o \u00e9, na verdade, nenhuma quest\u00e3o recente, entenda-se.<\/p>\n\n\n\n<p>A desfloresta\u00e7\u00e3o desregrada \u00e9, ouso asseverar, um h\u00e1bito da nossa esp\u00e9cie, que ter-se-\u00e1 revelado mais evidentemente h\u00e1 cerca de seis s\u00e9culos. De ent\u00e3o at\u00e9 ao presente, essa actividade destrutiva n\u00e3o tem cessado, a biodiversidade tem diminu\u00eddo, as doen\u00e7as aumentado, o planeta padecido e o clima sofrido bruscas altera\u00e7\u00f5es, tudo isto numa rede inquebr\u00e1vel, ao estilo de labirinto sem sa\u00edda. Hoje, quem n\u00e3o aceita esta certeza ter\u00e1, receio, assumido um ressoante t\u00edtulo de ignorante. N\u00e3o se trata de ambientalismos ut\u00f3picos, nem de pol\u00edticas incertas, sen\u00e3o de, t\u00e3o simplesmente, conhecermos a nossa significa\u00e7\u00e3o no cosmos: somos t\u00e3o importantes como uma part\u00edcula de cot\u00e3o e, no entanto, arruinamos a \u00fanica casa que temos na vasta infinidade do Universo. Seremos, por isso, detentores de grande poder? N\u00e3o. Somos, sim, animais fr\u00e1geis, irrespons\u00e1veis e inconsequentes. Afogamo-nos se o oceano se enfurece; vacilamos se o sol brilha mais intensamente; desaparecemos no caminho de um tornado; matamos os nossos cong\u00e9neres para exibirmos credos primitivos. Agora, como em tempos j\u00e1 sucedeu, \u00e9 um ser ultramicrosc\u00f3pico que compromete a nossa sobreviv\u00eancia. E n\u00e3o estamos, sequer, livres da erup\u00e7\u00e3o de um supervulc\u00e3o ou da colis\u00e3o de um corpo extraterrestre com a superf\u00edcie do planeta que habitamos. Perante a realidade, que \u00e9 esta, caro leitor, concordar\u00e1, certamente, que a redundante posi\u00e7\u00e3o b\u00edblica de soberania sobre o mundo deve conhecer o seu fim. Ao ser humano, mam\u00edfero africano, primata b\u00edpede, detentor de extraordin\u00e1ria capacidade intelectual, imp\u00f5e-se a tarefa de assentar os p\u00e9s no ch\u00e3o e curvar-se perante o Mundo Natural, onde, nele, se incluem outros seres iguais a si.<\/p>\n\n\n\n<p>Alexander von Humboldt foi um cientista. Como ele, ou, pelo menos, na mesma condi\u00e7\u00e3o profissional, muitos houve, antes e depois dele. N\u00f3s somos os de hoje, aqueles com o distinto privil\u00e9gio de poder sorver muito do Conhecimento gerado pelos gigantes em cujos ombros vamos caminhando. E \u201ca Ci\u00eancia pode outorgar-nos elementos que precisamos para salvar a Humanidade. Sem embargo, as decis\u00f5es n\u00e3o podem ser tomadas, ainda, pelos cientistas. S\u00e3o tomadas pelos pol\u00edticos\u201d (F\u00e9lix Rodr\u00edguez de la Fuente, 1978). Para pesar do povo, de cient\u00edfico, os pol\u00edticos t\u00eam muito pouco. Percorrendo a escadaria econ\u00f3mica de nossas vidas e de quem rege a forma como as vivemos, desde a Assembleia da Rep\u00fablica at\u00e9 ao nosso lar, porque a influ\u00eancia chega at\u00e9 \u00e0 forma como \u201cdecidimos\u201d cruzar as pernas ou ao sentido em que dilu\u00edmos o a\u00e7\u00facar no caf\u00e9, \u00e9 bastante \u00f3bvia a agnosia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o da Terra e suas potencialidades. Se n\u00e3o cr\u00ea no que digo, caro leitor, percorra essa escadaria metaf\u00f3rica que sugeri, e tente discriminar algu\u00e9m com poder, vontade e conhecimento suficientes para que, a esse n\u00edvel, eleve o povo portugu\u00eas. Escreva-me, se encontrar. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>* \u201cO Homem e a Terra\u201d (\u201cEl Hombre y la Tierra\u201d) \u00e9 o t\u00edtulo de uma s\u00e9rie televisiva de document\u00e1rios sobre vida selvagem apresentada por F\u00e9lix Rodr\u00edguez de la Fuente (1928 \u2013 1980), m\u00e9dico e naturalista espanhol.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diz-se frequentemente que os historiadores est\u00e3o condenados a verem repetir-se tr\u00e1gicos eventos ao longo das suas vidas, pois ao estudarem a Hist\u00f3ria da Humanidade, e conhecendo o complicado enredo das ac\u00e7\u00f5es humanas na civiliza\u00e7\u00e3o, prev\u00eaem, quase invariavelmente, por culpa de nossa casmurra natureza, os crassos erros que cometeremos, esses que j\u00e1 foram cometidos copiosamente. \u201cA<\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":362,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[10,45],"class_list":{"0":"post-361","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-cronica","8":"tag-covid-19","9":"tag-pedro-suarez"},"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avozdecambra.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/361","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avozdecambra.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avozdecambra.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdecambra.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdecambra.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=361"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/avozdecambra.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/361\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":446,"href":"https:\/\/avozdecambra.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/361\/revisions\/446"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdecambra.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/362"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avozdecambra.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=361"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdecambra.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=361"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdecambra.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=361"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}