{"id":949,"date":"2020-07-18T00:00:00","date_gmt":"2020-07-18T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/avozdecambra.pt\/?p=949"},"modified":"2020-07-18T10:55:13","modified_gmt":"2020-07-18T10:55:13","slug":"emigrantes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avozdecambra.pt\/?p=949","title":{"rendered":"Emigrantes"},"content":{"rendered":"\n<p>O meu \u00e9 um pa\u00eds frio de sol quente, dizem. De repente, h\u00e1 poucos anos, o sol come\u00e7ou a arrefecer para tantos! E foram \u00e0 procura do sol quente de pa\u00edses frios\u2026 Emigraram! Acordo muito cedo. Vou para a rua. Tudo limpo, tudo asseado, tudo ajardinado. Uma cidadezinha que \u00e9 um jardim.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Olho \u00e0 volta. Os montes erguem-se imponentes na sua alvura; os abetos pintalgam-se de branco, mais abaixo; mais abaixo ainda, quase no sop\u00e9 dos montes, o Criador inventou uma paisagem de tons dourados, castanhos, acobreados, amarelados, feita de folhas que o vento vai levando e, quando o inverno avan\u00e7ar, tudo ficar\u00e1 t\u00e3o branco como os cimos dos montes. Estou atenta \u00e0s conversas dos grupos que passam:<\/p>\n\n\n\n<p>-Salut, Isabel, Bonjour! J\u00e1&nbsp; vais para o trabalho?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Mais oui! Que \u00e9 que queres? \u00c9 a vida! Voil\u00e0! Mais adiante, um grupo de rapazolas corre para o comboio.<\/p>\n\n\n\n<p>-Sabes quem chegou h\u00e1 tr\u00eas dias?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Sei. Foi o Ant\u00f3nio da Ti Malvina.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Pois, pois! Mais il dit qu\u2019il va partir l\u00e0-bas\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>-Prometeram-lhe um boulot na refinaria que era do Kadhafi e olha, chegou e n\u00e3o arranjou nada! Vai voltar l\u00e1 para baixo, triste como a noite! Pensava que era f\u00e1cil! Na manh\u00e3 do dia seguinte a ter chegado j\u00e1 pensava que ia trabalhar!<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; \u00c9, n\u00e3o est\u00e1 a aguentar-se\u2026 Pensava que era f\u00e1cil? Quem lhe ter\u00e1 dito tal coisa? Vai ser preciso ampar\u00e1-lo! E l\u00e1 seguiram, apressados, para o trabalho. Triste e acabrunhado, Ant\u00f3nio foi deambulando pela cidadezinha, de m\u00e3os nos bolsos, deitando contas \u00e0 vida. De repente, deu com um letreiro num edif\u00edcio : Centro Portugu\u00eas. J\u00e1 lhe tinham falado naquele lugar. Sabia que ali encontraria conforto de amigos ou apenas de conhecidos mas que falavam a mesma l\u00edngua, um lugar onde se comia churrasco, bacalhau ou umas boas bifanas; um lugar onde podia sentar-se numa mesa a matar o tempo num jogo de damas, de domin\u00f3 ou de cartas. Ou ent\u00e3o podia, simplesmente, sentar-se a ver televis\u00e3o que, nos canais portugueses, lhe traria not\u00edcias frescas do seu pa\u00eds, ou os jogos de futebol do seu clube preferido. E, se assim fosse, ficaria pelo menos aturdido por algum tempo com o seu quase desistir do sonho, misturado com o entusiasmo que via nos que j\u00e1 l\u00e1 estavam h\u00e1 muito tempo e viam a vida melhorar. Ao lado, numa mesa, duas amigas conversavam:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Amanh\u00e3, eu e a Isabel vamos para os campos. As m\u00e1quinas v\u00e3o come\u00e7ar a r\u00e9colte das cenouras, vamos poder apanhar e depois congelar cenouras para uma grande temporada. A outra, que nunca tinha ouvido falar em tal, mas que j\u00e1 tinha reparado nas imensas planta\u00e7\u00f5es dessa raiz comest\u00edvel e t\u00e3o saud\u00e1vel, pediu explica\u00e7\u00f5es \u00e0 experimentada amiga para lhe contar que, assim que passavam as m\u00e1quinas da colheita, logo podiam encher sacos e sacos de cenouras que os agricultores deixavam para tr\u00e1s e que viriam a apodrecer na terra. O olhar da outra arregalou-se mais ainda quando a sua interlocutora acrescentou que se podia fazer o mesmo nos campos, a perder de vista, de cebolas e \u00e0s vezes at\u00e9 de batatas!<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Mas isso \u00e9 uma maravilha! Escus\u00e1mos de gastar o nosso dinheiro que nos custa tanto a ganhar a compr\u00e1-las!<\/p>\n\n\n\n<p>-Claro! Mas olha que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3! Ainda h\u00e1 pouco, por exemplo, apanhei, eu e o meu homem, mais a canalha, sacos e sacos de nozes e de castanhas! Depois, \u00e9 bom estar na lareira a parti-las ao ser\u00e3o\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Mas\u2026N\u00e3o \u00e9 proibido?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; N\u00e3o! Claro que n\u00e3o. Se fosse, n\u00e3o o faz\u00edamos. S\u00f3 se faz isto em determinados lugares que pertencem \u00e0 Comuna, ou seja, ao Estado. S\u00e3o \u00e1rvores que est\u00e3o \u00e0 beira das estradas ou a separar caminhos, campos\u2026 Sabes, acho que at\u00e9 lhes fazemos um favor \u2013 fica tudo limpinho! A outra rapariga embasbacava-se. Tudo t\u00e3o diferente do seu pa\u00eds! Tamb\u00e9m chegara n\u00e3o havia muito tempo, mas j\u00e1 tinha um boulot de que gostava. Trabalhava num magasin, era um trabalho leve, f\u00e1cil, at\u00e9 agrad\u00e1vel. Um palminho de cara moreno, bonito e bem portugu\u00eas, uma simpatia irradiante e ali estava, na sec\u00e7\u00e3o de perfumaria, feliz! Voltou a primeira: &#8211; E olha, no tempo das cerejas, h\u00e1s-de ver a pequenada, todos \u00e0s cerejas! E os grandes tamb\u00e9m! Parece prenda do C\u00e9u! Ant\u00f3nio n\u00e3o perdeu pitada desta conversa, pois estes h\u00e1bitos trouxeram-lhe algum alento. Havia de se arranjar. Era portugu\u00eas dos rijos, n\u00e3o tinha medo do trabalho e n\u00e3o ia desistir \u00e0 primeira. Tamb\u00e9m sabia que havia um forte sentimento de solidariedade naquela cidadezinha que n\u00e3o havia de o deixar cair.<\/p>\n\n\n\n<p>Volto para casa. A Lurdes anda \u00e0 volta dos tachos. Est\u00e1 na ch\u00f4mage. Mas amanh\u00e3 a assurance vai pagar-lhe a infiltra\u00e7\u00e3o de cortisona na coluna, que desgra\u00e7ou na f\u00e1brica das janelas. E, em breve, um cheirinho a roj\u00f5es traz um pouco do sol quente do nosso pa\u00eds frio\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Sabes, Al\u00edpio, hoje, al\u00e9m de n\u00f3s, tamb\u00e9m vem o F\u00e1bio, o Lu\u00eds, o Rafael, o Paulo e a Isabel; tamb\u00e9m o Edi, a mulher e as filhas; n\u00e3o achas melhor tamb\u00e9m chamar o Ant\u00f3nio? Temos que ver se lhe arranjamos um boulot! Est\u00e1 descoro\u00e7oado! E o cheirinho a roj\u00f5es intensificava-se\u2026 Um vaporzinho perfumado soltava-se do panel\u00e3o, entrava em toda a pequena casa, onde o m\u00f3vel maior parece ser a mesa, maior do que a pr\u00f3pria sala, talvez maior do que a pr\u00f3pria casa, pois a\u00ed cabe sempre mais um e, por isso, l\u00e1 brilha sempre o sol quente do meu frio pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>II<\/p>\n\n\n\n<p>Depois, anos mais tarde, sorrateira e insidiosa, chegou a pandemia. A fam\u00edlia de Lurdes e Al\u00edpio j\u00e1 tinha comprado bilhetes de avi\u00e3o para vir passar a P\u00e1scoa. Regressavam regularmente ao ninho portugu\u00eas. Sempre que a vida o permitia. Esse cord\u00e3o umbilical que tantos e tantos dos nossos emigrantes n\u00e3o sabem cortar. Mas todos os dias chegavam not\u00edcias alarmantes que tornavam mais e mais remota a hip\u00f3tese da vinda \u00e0 terra. Ele, \u201cchauffeur\u201d de cami\u00f5es, n\u00e3o parou de trabalhar. Andava bem informado. Ouvia aqui, ouvia ali, e o sonho do regresso por uns dias a Portugal foi-se esfumando, at\u00e9 que se esfumou de todo. Fariam, como fariam em Portugal muitas pessoas, uma cruz de flores que colocariam na parede exterior da casa ou na varanda, para se reencontrarem assim na sua f\u00e9 e se ligarem mais e mais entre si naquele momento de grande apreens\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao futuro. A dor de n\u00e3o poder partir era grande mas atenuada pela Tecnologia que os mais novos j\u00e1 dominavam na perfei\u00e7\u00e3o e que os mais velhos iam aprendendo. Calaram-se as f\u00e1bricas, pararam os transportes, toda a gente ficou dentro de porta, e assim se foram vivendo semanas\u2026 Quando chegou a altura das festas de Santo Ant\u00f3nio na terra, tudo estava a acalmar. Mas as fronteiras francesa e espanhola fechadas eram um entrave. No entanto, a vontade de celebrar o anivers\u00e1rio da m\u00e3e que coincidia com o dia de Santo Ant\u00f3nio, padroeiro da sua cidade, puseram-lhe ferro na vontade e l\u00e1 conseguiu uns documentos incertos mas legais, que lhe permitiriam, com limites de horas, atravessar os dois pa\u00edses de carro. Consigo trouxe o Ant\u00f3nio que, com a solidariedade dos outros emigrantes e deste seu amigo, l\u00e1 conseguiu dar rumo \u00e0 sua vida naquelas terras. Os dois sozinhos, sem a fam\u00edlia, fizeram-se \u00e0 estrada. Era melhor assim: e se os documentos n\u00e3o funcionassem e tivessem de voltar para tr\u00e1s? N\u00e3o! Assim, partilharam os transtornos da pandemia: ela, a mulher, ficou, um dos pequenos fazia anos, e eles, eles tentariam chegar \u00e0 sua terra. Quem sabia se, com um pouco de sorte, talvez pudessem assistir, ainda que pela televis\u00e3o, a jogos quer do SLB quer do FCP. Aos verdadeiros amigos o v\u00edrus da clubite n\u00e3o ataca! Uma vez na sua terra, e passados dias, souberam que as fronteiras abririam a 21 de Junho e ent\u00e3o nasceu-lhes alma nova. Regressariam sem temores, guardando, mesmo assim, por precau\u00e7\u00e3o, os documentos preciosos com eles. Preciosos sim, porque tinham permitido festejar junto da m\u00e3e o seu anivers\u00e1rio e viver, na sua cidade, com o cora\u00e7\u00e3o em festa, as comemora\u00e7\u00f5es do Santo casamenteiro, ainda que sem arraiais, marchas ou manjericos. Al\u00e9m de tudo isto, tinham ainda constatado com os seus pr\u00f3prios olhos que toda a fam\u00edlia se encontrava de sa\u00fade e que a pandemia se mantivera afastada, o que os levava a regressar ao pa\u00eds que os acolhera com alegria e vontade de continuar a concorrer para o sucesso do seu pa\u00eds. De facto, olhar um portugu\u00eas emigrado \u00e9 ver a bandeira de Portugal. &nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O meu \u00e9 um pa\u00eds frio de sol quente, dizem. 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