A Fundação Ilídio Pinho recebeu, esta quarta-feira a sessão científica “O Coração do Futuro: Ciência, Inteligência Artificial e Humanismo”, num encontro que reuniu especialistas, médicos e convidados para refletir sobre o impacto da inovação tecnológica na medicina, sem perder de vista a dimensão humana do cuidado em saúde.
Cristina Maria Santos
A conferência foi proferida por Ricardo Fontes-Carvalho, Diretor do Serviço de Cardiologia da Unidade Local de Saúde de Gaia e Espinho, seguindo-se um debate participado por uma plateia qualificada, composta maioritariamente por profissionais de saúde.
A escolha da Fundação Ilídio Pinho como palco desta sessão não é casual. Ao longo da sua história, a instituição e o seu fundador, Ilídio Pinho têm mantido uma ligação estreita à promoção do conhecimento, apoiando de forma consistente iniciativas nas áreas científica e tecnológica, e incentivando o pensamento crítico e a inovação.
Fundação reforça missão de promover ciência e conhecimento
Na abertura da sessão, o empresário valecambrense, Ilídio Pinho destacou o papel da instituição na promoção da ciência e do desenvolvimento humano:
“É com muito prazer que vos recebo aqui na Fundação Ilídio Pinho, cuja missão é contribuir para que o desenvolvimento da ciência seja um fator de valorização humana e um instrumento do desenvolvimento económico, de promoção da cultura e da solidariedade entre gerações e povos”, declarou.
O fundador sublinhou ainda a qualidade da assistência presente: “A assistência que faz parte deste evento e o nível intelectual de cada um permite-nos tirar uma conclusão óbvia: esta sala poderia explodir de inteligência, talento e conhecimento nas diversas áreas profissionais. Portanto, isto é um orgulho bonito.”
E reforçou a razão de ser da instituição: “É para isto que existe a Fundação Ilídio Pinho, ao serviço de causas úteis, nomeadamente esta, tão importante, que é salvar vidas e aliviar a dor.”
Um percurso de excelência
O professor Ricardo Fontes-Carvalho é uma das figuras mais destacadas da cardiologia contemporânea. Médico cardiologista, investigador e docente, exerce atualmente funções como Diretor de um dos mais relevantes serviços de cardiologia da Europa e é Professor Catedrático Convidado da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.
A sua atividade clínica centra-se na cardiologia clínica e na imagiologia cardíaca — áreas fundamentais para o diagnóstico precoce e para a personalização do tratamento das doenças cardiovasculares, que continuam a ser a principal causa de mortalidade a nível global.
Com uma carreira marcada pela produção científica de elevado impacto, esteve envolvido em mais de 50 ensaios clínicos e é autor de mais de 200 artigos publicados em revistas internacionais. O seu trabalho foi já distinguido com 19 prémios científicos, nacionais e internacionais.
Uma reflexão sobre o futuro da medicina
Na sua intervenção, Ricardo Fontes-Carvalho começou por reconhecer o papel da Fundação: “A Fundação Ilídio Pinho tem sido um marco e um contribuidor para a inovação, para a ciência e para o pensamento estratégico do país.”
Sobre o tema da conferência, afirmou que “o Coração do Futuro: Ciência, Inteligência Artificial e Humanismo” não é apenas um título, mas uma reflexão.
O especialista destacou que vivemos um momento único, numa nova era, um momento singular na história e que a inteligência artificial vai revolucionar as nossas vidas e, muito particularmente, a prática da medicina.
Ainda assim, deixou um alerta claro sobre a importância do fator humano:“Continuamos a ser pessoas, continuamos a ser médicos, e o humanismo será sempre basilar.”
Entre ciência, arte e prática clínica
A apresentação trouxe não apenas dados científicos, mas também uma abordagem humanista, estabelecendo paralelos entre medicina e arte. O cardiologista evocou figuras como Miguel Ângelo, Rafael Sanzio, Picasso, ente outros para lembrar como, já no Renascimento, existia um profundo conhecimento da anatomia humana.
Ao longo da sessão, abordou temas como: a realidade atual das doenças cardiovasculares em 2026; a prática clínica diária na cardiologia de Gaia e Espinho; exemplos concretos de inovação já aplicada; e perspetivas futuras com a integração da inteligência artificial.
O professor alertou para a dimensão do problema, de que, um em cada três portugueses morre de doença cardiovascular, mas deixou também uma mensagem de esperança:
“O avanço da ciência permitiu reduzir em mais de 40% a mortalidade ajustada por doença cardiovascular nas últimas décadas.”
Sublinhou ainda que, apesar de ser uma “doença pandémica”, cerca de 80% dos casos são evitáveis, reforçando a importância da prevenção e da inovação.
Inteligência artificial não substitui o médico
Outro dos pontos centrais da intervenção foi a integração da inteligência artificial na prática clínica, destacando que centros como o de Gaia e Espinho são já referências europeias na área, com equipas multidisciplinares e práticas inovadoras, incluindo avanços pioneiros como a implantação de dispositivos cardíacos avançados.
No entanto, deixou uma ideia-chave: “Tratar pessoas não é apenas tomar decisões técnicas ou algorítmicas. É também relação, empatia e humanismo.”
Debate e participação qualificada
Após a palestra, seguiu-se um debate vivo e participativo, onde foram discutidas questões como o papel da inteligência artificial na medicina e o consenso de que a tecnologia não substituirá os médicos, mas será uma ferramenta essencial no apoio à decisão clínica.
Entre os presentes estiveram diversas personalidades ligadas ao setor da saúde, incluindo membros do Conselho de Administração da unidade hospitalar de Gaia/Espinho, entre eles, a diretora clínica Ana Margarida Fernandes, natural de Vale de Cambra.
Um encontro entre inovação e humanismo
A sessão confirmou-se como um espaço de reflexão profunda sobre o futuro da medicina, onde ciência, tecnologia e valores humanos se cruzam. Mais do que respostas definitivas, a conferência deixou questões essenciais sobre o caminho a seguir — reafirmando que o progresso científico só faz sentido quando colocado ao serviço das pessoas.


