O CAE Vale de Cambra recebe, no próximo dia 18 de abril, pelas 21h30, a estreia da peça “Insegura – uma tragédia de enganos”, um texto de Ana Markl, com encenação de João Amorim, apresentado pelo Grupo de Teatro Juvenil local.
Cristina Maria Santos
A peça transporta o público para um futuro vagamente distópico, onde o sofrimento amoroso deixou de existir graças a um serviço chamado “Seguro Contra o Desgosto”. Leonor, a protagonista, recorre a este mecanismo após receber uma mensagem dramática do namorado. A partir desta premissa, o texto questiona até que ponto é possível evitar a dor sem pagar um preço emocional ou humano.
Encomendada no âmbito do projeto PANOS — palcos novos palavras novas, do Teatro Nacional D. Maria II, a obra ganha vida em Vale de Cambra através de um elenco composto por 15 jovens intérpretes femininas, que assumem o palco como um corpo coletivo — a verdadeira personagem principal desta criação.
Este elenco resulta de uma chamada aberta à comunidade, lançada pelo CAE Vale de Cambra em agosto de 2025, reforçando o caráter inclusivo e participativo do projeto. Os ensaios arrancaram em outubro de 2025, com encontros semanais às quartas-feiras à tarde, entre as 15h00 e as 18h00, num processo contínuo de aprendizagem e construção coletiva.
Um projeto nacional de teatro jovem
O PANOS é um projeto de teatro direcionado a jovens entre os 12 e os 19 anos, que promove uma ligação direta entre leitura, criação e apresentação teatral. Criado em 2005, tem envolvido centenas de participantes em todo o país, contribuindo para a descentralização cultural e para a formação artística e cívica de novas gerações.
Ao longo de vários meses, os grupos selecionados trabalham textos inéditos de autores contemporâneos, interagem com os próprios escritores e apresentam os seus espetáculos localmente. No final, algumas produções são escolhidas para integrar o Festival PANOS, que em 2026 terá lugar em Paredes.
Segundo o encenador João Amorim, “nós vamos estrear com mais 50 grupos espalhados por todo o país, ou pelo menos 50, com este mesmo texto”, destacando a dimensão nacional do projeto.
Vozes jovens: desafios, sonhos e conquistas
As jovens atrizes do grupo partilham entusiasmo, nervosismo e ambição face à estreia.
Beatriz Bastos (14 anos) recorda o início do seu percurso:
“Quando eu tinha bem uns 6, 7 anos, eu andava numa academia e costumava ter uma parte de teatro e eu gostava de andar lá. Inscrevi-me por causa de uma amiga que me disse que vinha.”
Sobre a peça, admite:
“A peça é difícil, mas é desafiadora.”
E revela o maior obstáculo:
“O meu maior desafio até agora é o fôlego (…) a personagem começa a correr muito e ao mesmo tempo tem as frases dela.”
Apesar disso, mantém o teatro como paixão:
“Não me vejo a ser atriz mas vejo-me a fazer teatro como um hobby.”
Victória Costa (15 anos) destaca a adaptação ao grupo:
“O meu maior desafio foi acostumar-me com esta gente toda, mas depressa me adaptei.”
E assume um sonho claro:
“Eu tenho o sonho de ser atriz, mas de cinema. Os meus pais apoiam-me nesse sonho.”
Sobre o processo, acrescenta:
“No início foi um pouco difícil perceber a peça (…) depois fui compreendendo e sabendo mais.”
Luzia Paiva (14 anos) encontrou no teatro uma forma de crescimento pessoal:
“O meu maior desafio foi enfrentar a timidez (…) estou a conseguir aos poucos superar.”
Com grandes expectativas, afirma:
“As minhas expectativas para o dia 18 são grandes e acho que vai correr bem.”
Sara Seabra (14 anos) sublinha a riqueza da experiência:
“O que eu mais gosto no teatro é a forma como nos podemos expressar (…) eu faço o papel de dois rapazes e isso é uma experiência muito diferente.”
E antecipa o espetáculo:
“Vai ser muito divertido (…) é uma questão de interpretação.”
Inês Pinho (13 anos) valoriza sobretudo o lado humano:
“O mais importante é que criámos laços, ganhámos novos amigos (…) foi uma experiência muito boa.”
Um projeto de transformação
Para o encenador João Amorim, o impacto do projeto vai além do palco:
“É um projeto que usa das ferramentas do teatro para trabalhar questões comunitárias e de cidadania.”
Destaca ainda a evolução do grupo:
“Tenho uma visão muito clara daquilo que nós éramos quando começamos (…) mas mais importante do que isso são as relações.”
Sobre a estreia, reforça:
“O dia 18 vai ser muito importante (…) valida todo o trabalho que não foi visível.”
E deixa um apelo direto:
“Que venham ver. Porque elas merecem.”
Apoio institucional e continuidade
O diretor artístico do CAE, João Aidos, sublinha o rigor do trabalho:
“Este é um desafio que está a ser levado muito a sério, com o mesmo grau de exigência técnico do Teatro D. Maria II.”
E acrescenta:
“Estou expectante com o primeiro trabalho deste grupo de teatro, que vai ter continuidade.”
Já a vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Vale de Cambra, Mónica Seixas, manifesta orgulho:
“Temos muito orgulho no grupo de teatro juvenil que está a ser criado no CAE de Vale de Cambra.”
Um coletivo em palco
A peça conta com a participação de Ana Marques, Ana Carvalho, Beatriz Bastos, Carlota Esperança, Inês Pinho, Juliana Pinheiro, Juliana Almeida, Kauane Oliveira, Luzia Paiva, Maria Rodrigues, Mariana Almeida, Marta Bastos, Raquel Coutinho, Sara Seabra e Victória Costa.
Os bilhetes têm o custo simbólico de dois euros e estão disponíveis na bilheteira física do CAE e online através do site oficial.
Entre o texto de Ana Markl e a encenação de João Amorim, “Insegura – uma tragédia de enganos” afirma-se como um projeto onde o coletivo, a descoberta e a transformação pessoal são o verdadeiro centro da criação.






Fotos de: Ângela Morais/CAE Vale de Cambra

