Durante décadas foi uma das vozes mais marcantes das páginas do A Voz de Cambra. Agora, José Peres, que assina esta obra com o pseudónimo “Jonas Peres”, estreia-se na ficção com Histórias do Zé, um livro que cruza memórias, realidade e imaginação para retratar um mundo rural que marcou gerações. A obra é, acima de tudo, uma homenagem às pessoas comuns, às suas lutas e à identidade de um Portugal que resiste ao esquecimento.
Cristina Maria Santos
Há nomes que ficam inevitavelmente ligados à história de um jornal. José Peres é um deles. Durante várias décadas, foi colaborador assíduo do Voz de Cambra, onde assinou textos de opinião que conquistaram leitores dentro e fora do concelho. As suas crónicas eram aguardadas com expectativa, não apenas pelos valecambrenses, mas também pelos muitos emigrantes espalhados pelo mundo que continuam a receber o jornal e a acompanhar a vida da sua terra.
Com uma escrita simultaneamente elegante, inteligente e mordaz, José Peres desenvolveu um estilo muito próprio. Escrevia de forma quase poética, mas nunca distante da realidade, conseguindo dizer aquilo que muitos pensavam e poucos ousavam escrever. Os seus textos, frequentemente dedicados à atualidade política e social, revelavam uma capacidade rara de analisar os acontecimentos com profundidade, ironia e um apurado sentido crítico.
Essa mesma identidade literária transita agora para Histórias do Zé, livro editado sob o nome literário de Jonas Peres, onde o autor constrói um conjunto de narrativas que se situam entre a memória, a realidade e a ficção.
Logo no prefácio, deixa claro que não pretende estabelecer fronteiras entre o que aconteceu e aquilo que foi imaginado.
“Não tentem rotulá-las ou adivinhar o que a cada um pertence, não curem de saber as que são reais ou fictícias, onde se iniciam as de um e acabam as do outro.”
Mais do que um romance convencional, Histórias do Zé apresenta-se como um retrato humano de uma época marcada pela pobreza, pelas crenças populares, pelos preconceitos e pela dureza da vida nas aldeias portuguesas. Através da personagem Zé e das figuras que o acompanham, o autor presta homenagem às mães que criaram os filhos em tempos difíceis, desconstrói mitos e tabus sociais e procura dar às gerações mais novas uma visão autêntica do Portugal rural de outros tempos.
No epílogo, a mensagem torna-se particularmente simbólica. Depois de acompanhar o percurso da personagem ao longo da obra, José Peres conclui que o verdadeiro destino constrói-se pelas escolhas de cada um.
“O destino, tal como lhe foi dito, não existe e, a existir, podemos alterá-lo, lutar por ele, sermos dele obreiros e não o aceitar como definitivo ou imutável.”
A contracapa sintetiza bem o espírito da obra, descrevendo-a como “um retrato vivo de memórias, afetos e tradições que ecoam a identidade dos pequenos lugares de outrora”, destacando igualmente a forma como o autor combina o registo popular com uma escrita cuidada e profundamente humanista.
Um homem que Vale de Cambra adotou como seu
Natural do Nordeste Transmontano, José Peres chegou a Vale de Cambra para construir a sua vida pessoal, profissional e cívica. Foi nesta terra que criou raízes e conquistou o respeito de quem com ele privou.
Residente em Rôge há muitos anos, integrou-se plenamente na comunidade, tornando-se uma figura reconhecida e respeitada tanto naquela freguesia como em todo o concelho. Embora não tenha nascido em Vale de Cambra, poucos duvidam de que é hoje um dos seus cidadãos mais identificados com a realidade local.
Além da colaboração jornalística, teve uma participação ativa na vida pública. Foi membro eleito da Assembleia Municipal de Vale de Cambra durante 24 anos consecutivos e integrou o Conselho Municipal de Segurança, distinguindo-se pelas intervenções fundamentadas e pelas questões pertinentes que levava às sessões, sempre centradas nas preocupações e reivindicações da população.
Ao longo da sua vida colaborou também com vários jornais, entre eles o Comércio de Angola, Miradouro de Cinfães, Notícias de Cambra e o próprio Voz de Cambra, deixando uma marca de independência intelectual e intervenção cívica.
Uma homenagem às memórias e às pessoas
A obra conta com o apoio da Associação Cívica Alberto Bastos, que considera Histórias do Zé um importante contributo para a preservação da memória coletiva e da identidade cultural das comunidades.
Mais do que um livro de histórias, esta publicação representa o culminar de uma vida de observação, reflexão e escrita. Quem conheceu José Peres através dos seus artigos reconhecerá facilmente nestas páginas a mesma voz firme, culta e subtilmente provocadora que durante tantos anos desafiou os leitores a pensar para além das aparências.
Agora, sob o nome de Jonas Peres, essa voz encontra uma nova forma de permanecer viva, transformando memórias em literatura e oferecendo aos leitores um retrato profundamente humano de um país, de um tempo e de pessoas que merecem ser lembradas.


