O Centro de Artes e Espetáculos (CAE) de Vale de Cambra recebeu, este domingo, uma sessão integrada nas comemorações do Revolução dos Cravos, marcada pela intervenção do autor Martinho Almeida, que apresentou o livro “A guerra do Ultramar e os combatentes de Vale de Cambra” e faz um apelo sentido ao Estado, para que apoie mais os ex-combatentes e famílias.
Cristina Maria Santos
Perante uma plateia essencialmente de ex-combatentes e familiares, o autor começou por sublinhar a importância do momento e da presença do público: “Obrigado a todos, desta vasta plateia que me orgulha e honra, e que é a prova evidente que os combatentes não são um tema de arquivo, mas sim uma presença viva, ativa e merecedora de atenção permanente do Estado e da sociedade.”
A obra que foi apresentada pelo jornalista valecambrense Luis Marçal, resulta de cerca de três anos de investigação e pretende preservar a memória dos antigos combatentes do concelho. Segundo Martinho Almeida, o livro surge para colmatar uma lacuna histórica local: identificar e dar rosto aos jovens de Vale de Cambra que, nas décadas de 60 e 70, participaram na Guerra do Ultramar em África. O autor destacou as dificuldades encontradas ao longo do processo, desde entraves burocráticos ao acesso limitado a fontes, sublinhando ainda o contributo coletivo que tornou possível a concretização do projeto.
Durante a sua intervenção, o autor reforçou o reconhecimento devido aos ex-combatentes, destacando o seu papel na história contemporânea portuguesa e o sacrifício pessoal e familiar envolvido. Recordou também aqueles que não regressaram e os que voltaram marcados física e psicologicamente, muitos dos quais reconstruíram as suas vidas em silêncio.
Um dos momentos centrais do discurso foi o apelo direto dirigido ao Secretário de Estado presente na sessão. Martinho Almeida pediu medidas concretas para melhorar o acesso ao Estatuto do Antigo Combatente, denunciando dificuldades burocráticas e falta de informação que ainda impedem muitos, incluindo viúvas, de usufruírem dos seus direitos. “Peço […] que se facilite o acesso ao reconhecimento do Estatuto a todos os combatentes e esposas dos que já faleceram para que ninguém fique esquecido”, afirmou, alertando que, apesar de alguns avanços, persistem lacunas que exigem resposta urgente.
O autor manifestou ainda confiança na capacidade do Governo para responder às necessidades dos antigos combatentes, sublinhando que “nenhum de nós deve sentir que o país que serviu o tenha abandonado”.
A intervenção incluiu também uma reflexão sobre o valor da paz, especialmente por quem viveu a guerra, e uma homenagem às famílias dos combatentes, em particular às mães e esposas que enfrentaram longos períodos de ausência e incerteza.
A encerrar, Martinho Almeida deixou um apelo às autoridades locais para a concretização de um Monumento ao Combatente em Vale de Cambra, como símbolo de memória e homenagem para as gerações futuras.
A sessão integrou o programa evocativo do 25 de Abril no concelho, reforçando a ligação entre memória histórica, reconhecimento e cidadania.

