Projeto previsto para o Alto de São Macário é anterior ao atual executivo e pretende abranger as serras e montanhas do território. Presidente da Câmara de São Pedro do Sul, Pedro Mouro garante que equipamento não será concorrente do Centro Interpretativo da Serra da Freita, em Arões, e considera que a comunicação do Governo “não foi feliz”. Vale de Cambra tinha manifestado surpresa com a decisão.
Cristina Maria Santos
A polémica em torno da anunciada construção de um novo Centro de Interpretação da Serra da Freita, em São Pedro do Sul, poderá ter resultado, afinal, da designação utilizada pelo Governo para um projeto que já tem cerca de três anos e que está previsto para o Alto de São Macário.
Em declarações ao Voz de Cambra, o presidente da Câmara Municipal de São Pedro do Sul, Pedro Mouro, esclareceu que não está em causa a criação de um equipamento destinado a concorrer ou replicar o Centro Interpretativo da Serra da Freita existente em Arões, no concelho de Vale de Cambra. O autarca admite mesmo alterar a designação do futuro espaço para evitar equívocos.
O Conselho de Ministros anunciou a aprovação de um decreto que permite a construção do “Centro de Interpretação da Serra da Freita”, atribuindo-lhe uma função “educativa, científica e de valorização do património natural e cultural da região”. A decisão foi tomada com o acordo da comunidade local de compartes dos Baldios de Macieira, em S. Pedro do Sul.
A designação causou surpresa em Vale de Cambra, precisamente porque o concelho dispõe já de um equipamento com um nome e objetivos semelhantes aos que constam na deliberação.
Projeto tem três anos e perdeu financiamento
Pedro Mouro explica, contudo, que não se trata de um projeto novo. Segundo o presidente da Câmara de São Pedro do Sul, a iniciativa foi apresentada há cerca de três anos pelo Município, em articulação com a ADRIMAG, através de uma candidatura ao PROVER das Montanhas Mágicas.
O processo acabou por não avançar porque era necessária a desafetação da área onde se pretendia instalar o equipamento, dependente do ICNF. A resposta não chegou em tempo útil e o Município acabou por perder o financiamento então previsto.
“Volvidos três anos, da parte da tutela foi-nos perguntado se continuávamos com interesse no projeto e nós dissemos que sim”, explicou Pedro Mouro, acrescentando que a necessária desafetação acabou agora por ser concretizada.
Para o autarca, esse atraso é a principal questão a retirar de todo o processo. “O que é de lamentar é o Governo ter demorado três anos a tomar uma decisão e o Município ter perdido o financiamento por causa disso. Isso é que é de lamentar”, afirmou.
Com o anterior apoio financeiro perdido, o próximo passo será encontrar uma nova fonte de financiamento. O Município pretende agora reformular o projeto e voltar a candidatá-lo a fundos que permitam a sua concretização. “Agora vamos à procura de nova forma de financiamento, porque é um projeto com elevado custo”, explicou Pedro Mouro.
“Se uma palavra está a criar desconforto alteramos essa palavra”
Quanto à designação “Centro de Interpretação da Serra da Freita”, que esteve na origem das reservas manifestadas em Vale de Cambra, Pedro Mouro desvaloriza o nome e admite que este seja alterado.
“Para nós o nome não é relevante. Pode ser Centro Interpretativo de Arada ou de São Macário”, exemplificou, defendendo que “mais importante que os nomes é aquilo que efetivamente se faz e se concretiza”.
O presidente da Câmara de São Pedro do Sul vai mais longe e mostra-se disponível para eliminar qualquer possível conflito em torno da denominação: “Se uma palavra é o que está a ajudar a um desconforto, nós alteramos essa palavra”.
Segundo Pedro Mouro, o objetivo será criar um centro interpretativo relacionado com as serras e montanhas daquele território de uma forma mais abrangente. O equipamento ficará na zona de São Macário e, independentemente da designação que venha a ser adotada, a intenção do Município é que contribua para dinamizar e valorizar toda aquela zona serrana. “As montanhas não são de um município ou de outro, são de todos”, sublinhou.
Questionado pelo Voz de Cambra sobre se o futuro equipamento poderá ter uma vertente semelhante àquela que já existe em Vale de Cambra, o autarca foi taxativo: “Nós nunca somos concorrentes de outros municípios. Somos sempre, no limite, complementares”.
Pedro Mouro defende, aliás, uma lógica de trabalho em rede entre os territórios que integram as Montanhas Mágicas, considerando que não faria sentido defender uma estratégia conjunta e, depois, cada município atuar isoladamente. “Ninguém está aqui só para defender a sua própria capela, como se costuma dizer”, afirmou.
Vale de Cambra ficou surpreendido
Antes destes esclarecimentos de São Pedro do Sul, a Câmara Municipal de Vale de Cambra tinha manifestado surpresa perante a deliberação anunciada pelo Governo.
“Ficámos surpreendidos com a deliberação porque não tínhamos conhecimento deste projeto, nem estava alinhado com a estratégia das Montanhas Mágicas”, afirmou ao Voz de Cambra a vereadora da Cultura, Mónica Seixas.
A autarca recordou que, em 2015, o Ministério da Agricultura cedeu ao Município de Vale de Cambra a antiga Casa do Guarda Florestal para aí ser criado o Centro Interpretativo da Serra da Freita.
“Para tal, foi reabilitado o edifício e tem sido um local com várias iniciativas que têm valorizado o património natural e cultural da região”, salientou Mónica Seixas.
Perante o anúncio do Conselho de Ministros, a intenção da Câmara de Vale de Cambra era contactar o Ministério para recordar que já existe um Centro Interpretativo da Serra da Freita no concelho.
Contactada novamente pelo Voz de Cambra, já depois dos esclarecimentos prestados pelo presidente da Câmara de São Pedro do Sul, Mónica Seixas clarificou que as reservas manifestadas inicialmente pelo Município não estavam relacionadas com a utilização da palavra “Interpretativo”. “Nós não estávamos contra a palavra ‘Interpretativo’. A questão era o anúncio da criação de um Centro Interpretativo da Serra da Freita com o mesmo nome e, de acordo com o comunicado do Conselho de Ministros, com objetivos semelhantes aos do centro que já existe em Vale de Cambra”, explicou a vereadora. Mónica Seixas reforçou ainda as palavras de Pedro Moura quanto à importância da articulação entre municípios, defendendo que os diferentes equipamentos devem “trabalhar em complemento” e que é necessário “olhar para o território das Montanhas Mágicas como um único território”.
Ainda assim, quando falou ao Voz de Cambra, Mónica Seixas admitia já a possibilidade de poder existir um equívoco na comunicação do Governo e de o anúncio dizer respeito a outro projeto, do qual tinha conhecimento, previsto para a Serra de São Macário.
Os esclarecimentos entretanto prestados por Pedro Mouro vêm confirmar essa possibilidade.
Comunicação do Governo “não foi feliz”
O próprio presidente da Câmara de São Pedro do Sul considera que a forma como a decisão foi divulgada pelo Governo terá contribuído decisivamente para a confusão.
“Acho que a comunicação não foi feliz por parte do Governo, sobretudo porque induziu que estaria [em causa] um projeto novo. Aliás, eu próprio nem sabia que o nome tinha sido aquele”, revelou.
O futuro equipamento ficará localizado no Alto de São Macário e o projeto deverá agora ser reavaliado. Como passaram cerca de três anos desde que foi inicialmente preparado e o financiamento então previsto deixou de estar disponível, Pedro Mouro considera prematuro avançar com as valências concretas que o espaço terá.
“Na altura tínhamos um projeto parado. Agora as circunstâncias são outras, vamos ter que reavaliar esse projeto”, explicou.
Depois dessa reavaliação, a intenção do Município é voltar a candidatar o projeto a fundos, procurando garantir o financiamento necessário para a sua concretização e avançar com um equipamento que permita dinamizar toda a zona serrana de São Macário.
Fica, assim, afastada, segundo o presidente da Câmara de São Pedro do Sul, a ideia de construir a poucos quilómetros de Vale de Cambra uma réplica do Centro Interpretativo da Serra da Freita. O projeto de São Macário deverá assumir uma abrangência diferente e, segundo Pedro Mouro, funcionar numa lógica de complementaridade e de trabalho em rede entre os territórios das Montanhas Mágicas.

