Vale de Cambra estreou este sábado uma Festa do Livro Infantil que a Câmara Municipal apresenta como pioneira no país neste formato. A iniciativa, que decorre durante três dias no centro da cidade, dá particular destaque aos cerca de 20 autores e ilustradores do concelho ligados à literatura infantil e arrancou com uma adesão que surpreendeu a própria organização logo durante a manhã.
Cristina Maria Santos
Ainda a primeira manhã da Festa do Livro Infantil ia a meio e Carolina Braga, da Casa d’Estórias e mentora da iniciativa, já admitia estar surpreendida com a afluência. “Ainda só agora começou, mas sou sincera, não esperava tanta gente”, confessou ao Voz de Cambra.
A surpresa era maior por se tratar de uma manhã de sábado, habitualmente preenchida com as atividades das crianças. “Há catequeses, há futebol, há balé, as famílias já têm as suas rotinas”, lembrou, brincando que talvez tivesse de “passar umas justificações de falta para umas catequeses e balés”.
A ideia da Festa do Livro Infantil nasceu precisamente da experiência desenvolvida pela Casa d’Estórias, espaço cultural e livraria onde Carolina Braga procura associar os livros a momentos de diversão e de partilha entre crianças e famílias.
“Mais do que uma livraria, queremos que seja um espaço cultural, queremos unir as famílias e queremos que as crianças comecem a associar o livro a um momento de diversão”, explicou.
Foi com esse princípio que apresentou a ideia à Câmara Municipal de Vale de Cambra. O projeto começou por ser pensado como uma feira do livro infantil, mas a adesão de autores, ilustradores, livrarias e outros participantes acabou por lhe dar outra dimensão.
“Optámos por focar o centro na festa, nos eventos, em dar a conhecer os livros dos autores locais e os ilustradores que temos cá”, explicou Carolina Braga.
Câmara aponta evento como pioneiro no país
O presidente da Câmara Municipal de Vale de Cambra, André Martins da Silva, considera que o formato adotado poderá mesmo colocar o concelho numa posição pioneira a nível nacional. Segundo o autarca, uma pesquisa efetuada antes da realização do evento não permitiu encontrar outra Festa do Livro Infantil com as mesmas características.
“Não existe no país. É o primeiro evento do género”, afirmou ao Voz de Cambra, ressalvando a existência de iniciativas semelhantes, nomeadamente feiras dedicadas ao livro infantil ou infantojuvenil.
“Uma Festa do Livro Infantil não existe, é a primeira vez. Por isso, estamos a ser pioneiros e a ser o primeiro município no país a realizar algo deste género”, sustentou André Martins da Silva.
O autarca recordou que a proposta partiu de Carolina Braga, que apresentou o projeto ao Município. “Achámos a ideia extraordinária e colocámo-nos logo, desde o primeiro momento, disponíveis”, afirmou.
O interesse que começou a surgir em torno da iniciativa levou depois à alteração do conceito inicial. “A adesão e o interesse no evento foi tanto, por parte de livrarias independentes, escritores, ilustradores e autores, e porque íamos ter muitas atividades para além da própria venda e mostra dos livros, que decidimos transformar numa Festa do Livro Infantil e deixar o rótulo de Feira do Livro”, explicou.
Cerca de 20 autores locais ligados à literatura infantil
Um dos aspetos que mais se destaca nesta primeira edição é o número de autores e ilustradores ligados a Vale de Cambra. De acordo com a organização e o Município, serão cerca de 20 os autores locais com trabalho na área da literatura infantil.
Para André Martins da Silva, o número revela uma realidade que será ainda desconhecida de muitos valecambrenses. “Perceber que há em Vale de Cambra tanta gente com esta capacidade, com este gosto pela literatura infantil, com esta qualidade de escrita e também de ilustração, acho que torna quase obrigatório à Câmara Municipal reconhecer esse trabalho e dar-lhes um espaço e um momento para o poderem mostrar na sua terra”, considerou.
Cláudia Pinto, Pedro Suárez, Isabel Figueiredo, Paula Pinho, Ana Margarida, Elsa Almeida, Andreia Pereira, Ana Pinho, Cristina Silvestre, Cândida da Luz, Nuno Carvalho, Fernanda Gonçalves, Liliana Aguiar, Sofia Coutinho e Sylvie Rodrigues estão entre os nomes associados à iniciativa, que conta ainda com Vale de Tesouros e com o livro O Tesouro das Montanhas Mágicas.
A vereadora da Cultura, Mónica Seixas, destaca precisamente a capacidade da iniciativa para juntar a promoção da leitura à valorização de quem escreve e cria no próprio concelho.
“Este é um projeto de muito valor, porque envolve os nossos autores, a nossa terra, a nossa comunidade. Estamos a dar valor à leitura e à criação literária”, afirmou ao Voz de Cambra.
Para a responsável pelo pelouro da Cultura, a existência de cerca de 20 autores locais dedicados à literatura infantil é também uma realidade que importa divulgar e valorizar. A Festa do Livro Infantil surge, assim, como uma oportunidade para dar maior visibilidade a esse trabalho e, simultaneamente, aproximá-lo das crianças e das famílias.
Mónica Seixas enquadra ainda a iniciativa numa preocupação mais ampla com os hábitos de leitura entre os mais novos. Numa altura em que indicadores internacionais, nomeadamente o estudo PISA, têm chamado a atenção para o desempenho dos alunos no domínio da leitura, a vereadora considera que o poder local também tem um papel a desempenhar.
“É nosso dever continuar a apostar na leitura infantil”, defendeu.
A autarca sublinha ainda que a parceria com a Casa d’Estórias permite ao Município aproveitar e valorizar o conhecimento existente no próprio território. A iniciativa, explicou, nasceu em colaboração com este projeto local, reconhecendo também “o conhecimento de quem empreende em Vale de Cambra nesta área”.
“Se não viesse mais ninguém, a feira já era riquíssima”
Carolina Braga considera que o número de autores e ilustradores existentes no concelho constitui, por si só, matéria suficiente para dar consistência ao evento.
“Acho que nos últimos anos houve um ‘boom’ muito grande de autores e isso expressou-se aqui também em Vale de Cambra”, observou, destacando a coragem associada à decisão de publicar uma obra e expô-la aos leitores.
“Temos aqui ilustradores e autores infantis. É uma coisa espetacular. Se não viesse mais ninguém, a feira já era riquíssima só com as pessoas de Vale de Cambra”, afirmou.
Entre os ilustradores presentes está Ana Pinho, que, além de mostrar o seu trabalho, dinamiza uma oficina de ilustração. Para a ilustradora, é importante dar a conhecer às crianças e às famílias aquilo que existe para além do livro acabado.
“Há todo um processo por trás disto tudo que as pessoas muitas vezes desconhecem. Eu gosto de falar e mostrar, gosto que as pessoas vejam”, explicou ao Voz de Cambra.
Ana Pinho acredita também que a componente visual pode funcionar como uma porta de entrada para a leitura. “As crianças muitas vezes pegam num livro não só pela história, mas principalmente pela capa. Depois de verem a capa, surge a curiosidade em folhear o livro, em ler uma palavra ou outra e, se calhar, ler mais uma página”, referiu.
Por isso, considera que uma iniciativa deste género “ajuda e amplifica” o contacto com a leitura desde muito cedo.
De Coimbra para participar na Festa do Livro
O evento trouxe também a Vale de Cambra projetos de outros pontos do país. É o caso da Faz de Conto, livraria de Coimbra especializada em literatura para a infância.
A proprietária, Sofia Correia, explicou que aceitou o convite por se identificar com o conceito da iniciativa e pela oportunidade de apresentar a seleção de literatura infantil que desenvolve na livraria.
“Este tipo de eventos faz toda a diferença na comunidade. Criar momentos em que a comunidade se pode reunir através dos livros é essencial para mim, assim como promover a leitura nas gerações mais novas”, afirmou.
Para Sofia Correia, o contacto com os livros deve começar logo nos primeiros anos de vida. “Se as crianças, desde bebés, tiverem livros ao seu alcance, tanto na escola como em casa, na biblioteca e noutros locais, isso facilita imenso, ao longo da vida, o interesse pela leitura”, defendeu.
Famílias dão o exemplo
E entre os visitantes da primeira manhã havia precisamente famílias à procura de novos livros. Sofia Martins encontrava-se a comprar obras para os dois filhos, uma adolescente e uma criança, e considera que iniciativas deste género são importantes para reforçar hábitos de leitura.
“É uma iniciativa muito boa”, afirmou, salientando que os filhos gostam de ler e apreciam os livros. Para esta mãe, numa época marcada pelos suportes digitais, eventos desta natureza permitem também recuperar a relação com o objeto físico: “O livro em si, físico, hoje em dia também desaparece um bocadinho. E isto faz com que haja o contacto com o papel”.
Sofia Martins contou ainda que a filha mantém hábitos de leitura, nomeadamente durante as férias, período em que todos os anos lê pelo menos um livro.
Também Sofia Suárez, jovem familiar do autor Pedro Suárez, cresceu com os livros por perto e reconhece a importância do incentivo familiar. “Sempre fui muito incentivada pela minha família a ler”, contou ao Voz de Cambra, acrescentando que continua a ler muito e que já participou em sessões de Hora do Conto na Casa d’Estórias.
Presente num dos espaços do evento e habituada ao contacto com crianças, Sofia dizia estar com “expectativas muito altas” para os três dias, destacando também a quantidade de pessoas que já circulava pelo recinto durante a manhã.
Um evento para envolver a comunidade
A Festa do Livro Infantil não se limita aos autores e livrarias. A iniciativa procurou também envolver associações de pais e diferentes projetos locais, reforçando uma das ideias sublinhadas pela organização e pelo Município desde o início: fazer da Festa não apenas um evento em torno dos livros, mas também um ponto de encontro entre famílias, autores, ilustradores, livreiros, associações e outros elementos da comunidade.
Entre os participantes esteve a livraria Ponto Praça, de Vale de Cambra, que marcou presença com livros, material didático e jogos. Para Luís Pinho, responsável pelo espaço, participar foi uma resposta natural ao convite lançado pela organização.
“O convite da Carolina, da Casa d’Estórias, e uma excelente iniciativa como esta levaram-nos a participar. Estamos abertos a este tipo de iniciativas”, explicou ao Voz de Cambra, destacando também a aposta do Município na área cultural. “São iniciativas que não se devem deixar para trás.”
Além da vertente comercial e da oportunidade de dar a conhecer o espaço e os produtos disponíveis na loja, Luís Pinho destaca a importância de incentivar as famílias para a leitura e para outras formas de aprendizagem e convívio. A Ponto Praça levou, por isso, não apenas livros, mas também jogos familiares, didáticos e interativos.
Num tempo em que captar a atenção das crianças para os livros nem sempre é fácil, o livreiro considera importante criar novas formas de as aproximar da leitura e de atividades que possam ser partilhadas em família.
Para Luís Pinho, esta primeira edição poderá igualmente abrir caminho à consolidação do evento. “É a primeira vez e estamos no caminho certo”, considerou, manifestando desde já vontade de voltar a participar em futuras edições.
O responsável lembra ainda que novos projetos implicam sempre alguma experimentação. “Se este tipo de iniciativas não se fizer, nunca se sabe se corre bem ou se corre mal”, afirmou, defendendo que importa dar espaço a quem apresenta novas ideias e adaptar as propostas culturais às diferentes gerações.
Associações de Pais aproveitam Festa para apoiar atividades das crianças
Também as Associações de Pais do concelho aceitaram o desafio de participar na Festa do Livro Infantil, instalando um espaço destinado não só a dar a conhecer o trabalho da associação, mas também a angariar fundos para financiar atividades dirigidas às crianças.
Segundo uma representante da Associação de Pais do Centro Escolar do Búzio, Carmen, o convite lançado pela Biblioteca Municipal, Câmara Municipal e Casa d’Estórias foi recebido com entusiasmo pelos seus membros.
“São instituições em que acreditamos, projetos em que acreditamos e achámos que, neste projeto em particular, faria todo o sentido estarmos aqui”, explicou ao Voz de Cambra.
A ligação direta do evento às crianças pesou igualmente na decisão. “É realmente destinado a crianças, que são o nosso público-alvo. Depois, tem muita animação, muitas atividades e acreditamos que vai haver muitas visitas e muita procura”, acrescentou.
A presença na Festa permite simultaneamente divulgar o trabalho desenvolvido pela Associação de Pais e angariar receitas para novas iniciativas. “É uma forma de dar a conhecer a associação e de angariar alguns fundos para atividades que gostamos de proporcionar aos meninos”, explicou.
A decisão de participar foi, segundo a responsável, consensual, apesar do esforço necessário para assegurar toda a logística. “Todos os membros foram unânimes em considerar que seria um projeto interessante para participar.”
E a própria participação procurou manter uma ligação ao tema central da Festa. Entre as propostas levadas pela associação encontram-se livros e outros materiais, incluindo um cabaz que será sorteado, numa presença que procura contribuir também para a promoção da leitura.
A angariação de fundos permitirá apoiar iniciativas que a associação tem vindo a desenvolver no Centro Escolar do Búzio, muitas delas precisamente nas áreas cultural e pedagógica. “Muitas das atividades que estamos a promover na escola estão ligadas à leitura e ao teatro. Há muitas atividades neste âmbito mais cultural e pedagógico”, salientou.
A participação da Associação de Pais acaba, assim, por materializar uma das vertentes que a organização quis imprimir à primeira Festa do Livro Infantil: envolver a comunidade em torno das crianças, dos livros e da leitura.
Também Carolina Braga já pensa no futuro. A mentora da iniciativa recorda que, ainda durante as reuniões de preparação, surgiam ideias para uma eventual edição seguinte. “Ainda nem tinha começado e já estávamos a dizer: ‘para o ano também podíamos fazer…’”.
Apesar de o evento não estar inicialmente previsto no orçamento e ter sido concretizado, segundo Carolina Braga, com “muita boa vontade” e “muita força de braços”, a responsável diz-se satisfeita com o resultado alcançado.
“Não podia estar mais feliz com o que se conseguiu fazer este ano”, afirmou, destacando o espaço criado no centro da cidade, as zonas de sombra e a instalação de uma tenda que permite salvaguardar as atividades perante uma eventual alteração das condições meteorológicas.
Segunda edição deverá acontecer em 2027
A continuidade parece, aliás, estar já no horizonte. André Martins da Silva considera que a Festa do Livro Infantil tem condições para crescer e aponta para uma nova edição no próximo ano.
“Acredito que este evento tem uma margem de crescimento muito grande e, por isso, acredito claramente que em 2027 teremos a segunda edição”, afirmou.
Até lá, a primeira Festa do Livro Infantil continua este domingo e segunda-feira, no centro de Vale de Cambra, com apresentações de livros, histórias cantadas, horas do conto, oficinas de escrita e ilustração, pintura, atividades para diferentes idades e momentos musicais.
A participação é gratuita, estando as atividades com lotação limitada sujeitas a inscrição no local, por ordem de chegada.















