Entre os munícipes que aderiram à oferta de castanheiros na Feira da Castanha de S. Pedro de Castelões está Isilda Sousa, uma das mais novas produtoras do concelho. Aos 46 anos, está a recuperar cerca de 35 mil metros quadrados de terrenos familiares, depois de mais de duas décadas de abandono, e quer fazer da plantação um investimento no futuro da propriedade.
Cristina Maria Santos
Isilda Sousa saiu da Feira da Castanha de S. Pedro de Castelões com 50 castanheiros destinados a uma quinta familiar que está a recuperar junto ao rio Caima, em Macieira de Cambra. É um dos exemplos da adesão à distribuição gratuita de árvores promovida pelo Município de Vale de Cambra e pela Junta de Freguesia, que este ano ultrapassou o milhar de castanheiros e chegou a munícipes de todas as freguesias.
Em declarações ao Voz de Cambra, explicou que pretende plantar parte das árvores numa área anteriormente ocupada por eucaliptos, cortados há cerca de um ano. Os castanheiros ficarão na orla dos terrenos, formando uma barreira natural em torno da propriedade, numa intervenção com a qual procura reorganizar a quinta e contribuir para a sua proteção.
A possibilidade de vir a colher castanhas faz também parte dos objetivos, embora reconheça que será necessário esperar pelo crescimento das árvores e pela enxertia. “Para já, o propósito é recuperar o espaço, voltar a cultivar e preparar o futuro”, referiu.
A quinta pertenceu aos seus antepassados e ficou ao abandono durante mais de 20 anos, após a morte do pai. Nos últimos dois a três anos, Isilda tem procurado inverter esse percurso, dedicando tempo e recursos próprios à limpeza, ao corte da vegetação e à recuperação das estruturas existentes.
“Mais do que iniciar uma atividade agrícola, quero dignificar o património familiar que recebi”, lembrou. A sua profissão, na área da gestão de clientes, está distante do trabalho no campo, mas isso não a impediu de assumir pessoalmente parte das tarefas necessárias para devolver vida à propriedade.
A recuperação já passou por uma nascente de água e por um tanque, assim como por árvores de fruto que sobreviveram aos anos de abandono. “Na quinta existem, entre outras produções, kiwis, laranjeiras e figueiras. Este ano, fiz também uma plantação de abóboras e tenho aproveitado produtos para a confeção de compotas, procurando acrescentar valor ao que a terra oferece”, explicou.
Os castanheiros representam mais uma etapa desse projeto. A produtora gostaria de, no futuro, juntar a família e os amigos num magusto com castanhas da quinta. Quer também plantar milho para organizar uma desfolhada, recuperando tradições que associa à vida no campo.
A ligação à propriedade é partilhada pela família, que ali encontra um espaço de descanso e contacto com a natureza. Junto ao rio, um açude construído pelos bisavós e restaurado pelo pai continua a fazer parte dessa herança.
O entusiasmo, porém, não apaga as dificuldades. Isilda identifica a falta de mão de obra como um dos principais obstáculos, sobretudo nas épocas em que a vegetação cresce mais depressa e o trabalho de manutenção se intensifica. “Mesmo estando disponível para pagar pelos serviços, nem sempre consigo encontrar quem os execute”, afirmou.
A dimensão e a configuração das propriedades da região também dificultam a mecanização. Num território marcado pelo minifúndio, muitas tarefas continuam a exigir trabalho manual, com custos que pesam em quem procura recuperar terrenos e voltar a produzir.
Isilda gostaria de poder dedicar-se mais à quinta, mas reconhece que, nesta fase, a atividade não lhe permite assegurar o rendimento necessário. Por isso, encara com expectativa o anúncio de novos apoios municipais aos produtores, defendendo medidas capazes de tornar a agricultura mais viável e de atrair pessoas com outros percursos profissionais.
A quem pensa seguir um caminho semelhante, aconselha realismo: “o retorno financeiro não é imediato nem garantido”. Em contrapartida, destaca a tranquilidade, o bem-estar e a satisfação pessoal que tem encontrado na recuperação da terra.
O seu percurso traduz um dos objetivos do Projeto de Promoção da Castanha e do Castanheiro, lançado em 2021 pelo Município e pela Junta de Freguesia de S. Pedro de Castelões: incentivar novas plantações, aumentar a produção e dar continuidade a uma cultura ligada à identidade do concelho.
Para Isilda Sousa, os 50 castanheiros agora recebidos são uma ajuda concreta num trabalho que avança por etapas. A recuperação da quinta continuará a fazer-se aos poucos, entre as exigências da vida profissional, o investimento disponível e a vontade de preservar o legado familiar.

