O concelho de Vale de Cambra recebeu esta sexta-feira a conferência “Desafios e oportunidades de investimento nas indústrias da defesa”, reunindo mais de meia centena de empresários locais e responsáveis institucionais num encontro marcado pela ambição de integrar a indústria local num setor estratégico para a economia nacional. A iniciativa contou com a presença do Ministro da Defesa Nacional, Nuno Melo.
Cristina Maria Santos
A iniciativa, promovida pelo município no Centro de Artes e Espetáculos (CAE) de Vale de Cambra, contou com a presença do Ministro da Defesa Nacional, Nuno Melo, que destacou o potencial da região para integrar a cadeia de valor da defesa. Questionado sobre a capacidade do concelho, o governante foi direto: Vale de Cambra “está preparada há muito”, sublinhando o dinamismo empresarial do distrito de Aveiro e a capacidade de adaptação das suas empresas.
“O importante é que as empresas conheçam as oportunidades”, afirmou, apontando áreas como metalomecânica, cablagens, tecnologia ou serviços como portas de entrada para o setor. Para o ministro, está em curso “uma transformação, uma revolução”, que exige sobretudo mais informação e ligação entre o Estado e o tecido empresarial.
Também o presidente da Câmara Municipal de Vale de Cambra, André Martins da Silva, reforçou essa ambição. Na abertura, destacou o concelho como “motor tecnológico e industrial de Portugal” e defendeu a integração das empresas locais nas cadeias de valor da defesa.
O autarca deixou uma mensagem clara ao Governo: “As nossas empresas estão prontas. O talento, a competência e a capacidade dos valecambrenses está à disposição do país para fortalecer a nossa base tecnológica e industrial de defesa. Aqui, em Vale de Cambra não se falha nem nos prazos nem na qualidade.”, sublinhou.
Do ponto de vista técnico, o Diretor-Geral do Armamento e Património da Defesa Nacional, António José Batista, revelou que existem atualmente cerca de 450 empresas em Portugal ligadas ao setor, 81 das quais entraram no último ano. Explicou ainda que a produção de equipamentos de defesa exige certificação — um processo exigente mas essencial por razões de segurança —, embora a produção de componentes não esteja sujeita às mesmas regras. Presente nesta conferência esteve também o presidente da Indústria da Defesa Nacional, Ricardo Pinheiro Alves.
O responsável destacou também a existência de plataformas que permitem às empresas aceder a concursos e oportunidades, incluindo ligações a multinacionais do setor.
Entre os empresários presentes, o valecambrense Ilídio Pinho sublinhou o orgulho em contribuir para o país através da indústria, lembrando que Vale de Cambra exporta atualmente para mais de 60 países e trabalha em lógica de cluster. Apesar de reconhecer que o concelho não irá produzir equipamentos como drones ou mísseis, garantiu que possui “qualidades extraordinárias” ao nível da tecnologia e precisão que podem servir a indústria da defesa.
Já o presidente da Associação Empresarial de Cambra e Arouca (AECA), Carlos Brandão, defendeu a importância de sistematizar e partilhar a informação transmitida na conferência, para que chegue de forma eficaz às empresas da região.
O encontro, cuja sessão inicial decorreu à porta fechada, procurou precisamente promover esse contacto direto entre empresários e entidades do setor, num momento de crescente investimento europeu em defesa.
Com um peso industrial significativo — cerca de 63,5% do emprego local —, Vale de Cambra destaca-se como um dos concelhos mais industrializados do país. A evolução do setor é evidente: de 104 empresas na indústria transformadora em 1972, passou para 360 em 2018, reforçando a sua posição como território com forte vocação produtiva.
Num contexto internacional marcado por novas exigências em matéria de segurança e soberania, o concelho quer agora transformar essa capacidade industrial numa oportunidade concreta de crescimento, inovação e afirmação no setor da defesa.


