O Salão Nobre dos Paços do Concelho de Vale de Cambra acolheu este sábado a primeira reunião intermunicipal presencial dedicada à salvaguarda do Canto a Vozes, reunindo representantes de mais de uma dezena de autarquias de todo o país. O encontro, integrado no 2.º Encontro Nacional de Canto a Vozes, serviu para reforçar o trabalho em rede entre municípios, associações e comunidades, numa estratégia conjunta que visa consolidar a futura candidatura do Canto a Vozes de Mulheres a Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO.
Cristina Maria Santos
Mais de uma dezena de municípios de diferentes pontos do país participaram este sábado, em Vale de Cambra, na primeira reunião intermunicipal presencial dedicada à salvaguarda do Canto a Vozes, iniciativa considerada pelas entidades envolvidas como um passo decisivo para fortalecer a futura candidatura à UNESCO.
A reunião decorreu no Salão Nobre dos Paços do Concelho e integrou a programação do 2.º Encontro Nacional de Canto a Vozes. Ao todo, estiveram representados 11 municípios, entre eles Arouca, Esposende, Guimarães, Lisboa, Oeiras, Santa Maria da Feira, São Pedro do Sul, Sever do Vouga, Viana do Castelo, Vouzela e Vale de Cambra.
Para a presidente da Associação Canto a Vozes – Fala de Mulheres, o principal objetivo deste encontro foi conseguido: “Esta reunião serviu para uma coisa fundamental, que era juntar quem ainda não tinha estado junto ao vivo”. A responsável sublinhou que, apesar de já terem existido contactos anteriores durante o processo de candidatura ao Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, “foi a primeira reunião presencial intermunicipal deste género”.
Segundo explicou em declarações ao Voz de Cambra, a associação já identificou 25 municípios ligados ao canto a vozes através dos seus grupos associados, embora admita que o número possa crescer. “Há seguramente mais grupos e mais territórios ligados a esta tradição. Este movimento também serviu para dar visibilidade a um canto que era muito pouco conhecido fora das comunidades”, afirmou.
Atualmente, a associação reúne 69 grupos, número que continua a aumentar. “Há mais grupos a querer juntar-se. Descobrimos que havia muito mais gente a cantar do que aquilo que imaginávamos e que havia caminho para continuar”, referiu.
A dirigente destacou ainda que uma das maiores conquistas deste processo foi precisamente a criação de uma rede entre grupos e comunidades de diferentes regiões do país. “Nós escolhemos um caminho mais difícil, mas talvez mais sólido: unir as pessoas e fazer este movimento partir da base, das comunidades e dos próprios grupos”, afirmou.
Sobre a candidatura à UNESCO, mostrou-se confiante: “Foi-nos dito hoje que esta candidatura tem tudo para ser ganhadora. Mas o mais importante não é apenas chegar à UNESCO. O mais importante é aquilo que fazemos aqui em Portugal para preservar este património.”
Fábio Pinto, coordenador da Cidade Criativa Gastronómica UNESCO, de Santa Maria da Feira – um dos municípios presentes no evento – destacou ao Voz de Cambra, a importância do alargamento da rede de apoio à candidatura. “Como se falou na reunião, há necessidade de unir esforços e aumentar a rede geográfica que apoia esta candidatura, de forma a que ela alcance maior notoriedade e também um interesse geral da comunidade, à semelhança do que aconteceu, por exemplo, com a candidatura do Fado”, afirmou.
O responsável considerou ainda fundamental a realização deste tipo de encontros e o envolvimento dos grupos participantes no evento. “É importante que estas reuniões aconteçam e aquilo que está a acontecer também no Centro de Artes e Espetáculos, porque grande parte das pessoas que lutam pela preservação e divulgação desta arte de cantar estão aqui reunidas”, referiu, destacando que os grupos participantes se encontravam, naquele momento, em ensaios conjuntos para o espetáculo da noite.
A vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Vale de Cambra, Mónica Seixas, fez um balanço muito positivo da reunião, sublinhando o carácter inédito do encontro. “Nunca foi feito, pelo menos desta maneira, envolvendo tantos municípios”, afirmou.
A autarca explicou que os 25 municípios identificados foram convidados, tendo marcado presença representantes de 14 autarquias, além das CCDR Norte e Centro e elementos ligados ao processo de candidatura.
“O mais importante é obrigarmos todos a olhar para este património como uma preciosidade da nossa memória coletiva. Independentemente de existir candidatura ou não, ele precisa de ser preservado e salvaguardado”, destacou.
Mónica Seixas revelou ainda que os especialistas presentes reforçaram que o trabalho já desenvolvido pelos municípios e associações vai ao encontro dos principais critérios valorizados pela UNESCO. “O envolvimento da comunidade, o trabalho com os jovens e a valorização do papel da mulher são aspetos muito fortes nesta candidatura”, explicou.
A vereadora recordou que o canto a vozes “é um canto no feminino, uma voz da mulher”, dimensão que considera particularmente relevante no contexto da valorização do património imaterial.
Outro dos aspetos destacados durante a reunião foi a necessidade de formalizar compromissos entre municípios e associação através de protocolos de colaboração, definindo responsabilidades na preservação e promoção desta tradição.
“Há coisas que têm de ser feitas em conjunto e esse compromisso precisa de ficar claro. Foi talvez o ponto mais importante desta reunião”, referiu Mónica Seixas, acrescentando que o objetivo passa por criar uma estratégia contínua de salvaguarda, independentemente de mudanças futuras nos executivos municipais.
A responsável destacou ainda o impacto que o encontro já está a ter no território. “Este evento posiciona Vale de Cambra, traz pessoas de fora, dinamiza o comércio local e dá visibilidade a um património que precisa de ser conhecido”, afirmou.
No futuro, o trabalho passará pela recolha de mais documentação, inventariação de grupos e criação de um dossier conjunto de candidatura, que será posteriormente apresentado ao Ministério da Cultura e à Comissão Nacional da UNESCO.
Apesar de reconhecer que o processo poderá ser demorado, Mónica Seixas garante que o objetivo está definido. “Isto pode demorar anos, mas não é motivo para desistir. O importante é continuar a trabalhar para preservar este património.”
A reunião terminou com o compromisso de continuidade do trabalho em rede entre municípios, associação e comunidades locais, numa estratégia que pretende assegurar a preservação e valorização do Canto a Vozes para as próximas gerações.

