A Serra do Arestal voltou, este sábado, 25 de julho, a receber uma das mais emblemáticas celebrações das tradições rurais da região. A Feira do Arestal reuniu criadores, responsáveis autárquicos e inúmeros visitantes num evento marcado pelo Concurso da Raça Bovina Arouquesa e por uma forte mensagem de cooperação entre Vale de Cambra e Sever do Vouga.
Cristina Maria Santos
Organizada conjuntamente pela Cooperativa Agrícola de Sanfins, pela Cooperativa Agrícola do Vale do Vouga e pela Junta de Freguesia de Junqueira, a iniciativa procurou valorizar o trabalho dos agricultores, preservar uma raça autóctone ligada à identidade do território e garantir a continuidade de uma tradição com várias décadas.
Para Baltazar Lages, presidente da Junta de Freguesia de Junqueira, a Feira do Arestal é indissociável da identidade da freguesia.
“Junqueira merece esta feira, que se realiza há muitos anos. Sem isto, a nossa tradição não faria sentido”, afirmou ao Voz de Cambra.
O autarca destacou a importância do trabalho desenvolvido em parceria com as cooperativas agrícolas e com o Município de Sever do Vouga, considerando que a colaboração entre entidades “faz todo o sentido”. Perante a elevada presença de público, incluindo emigrantes que regressam à região durante o verão, Baltazar Lages mostrou-se satisfeito com o decorrer do concurso e assumiu o compromisso de continuar a trabalhar na promoção da raça arouquesa.
“Vamos trabalhar e tentar fazer a diferença na promoção da raça arouquesa”, garantiu.
Município promete reforçar apoios
O presidente da Câmara Municipal de Vale de Cambra, André Martins da Silva, considerou que a Feira do Arestal, juntamente com a Feira dos 16, em Cepelos, constitui uma das principais iniciativas de promoção do território e da raça arouquesa no concelho.
“São duas atividades importantíssimas para a promoção do território e, muito concretamente, da raça arouquesa”, salientou.
O autarca recordou que o Município tem assegurado apoio logístico e financeiro às iniciativas, adiantando que já existe um compromisso, aprovado em reunião de Câmara e pela Assembleia Municipal, para reforçar os apoios nos próximos anos.
“Queremos reforçar o apoio, não só aos produtores, mas também aos próprios eventos, para que a raça arouquesa comece a ter um lugar de destaque na promoção de Vale de Cambra”, explicou.
André Martins da Silva defendeu ainda uma estratégia mais abrangente de valorização dos produtos locais, semelhante ao trabalho que tem vindo a ser desenvolvido em torno do vinho verde.
“Queremos colocar neste pacote a broa de Paraduça, o mel e todos os outros produtos que se produzem em Vale de Cambra e que têm uma enorme qualidade. Têm, de uma vez por todas, de ganhar um lugar de destaque”, afirmou o autarca ao Voz de Cambra.
Também o vice-presidente da Câmara Municipal de Vale de Cambra, Sérgio Soares, realçou a ligação histórica do concelho à agricultura e a importância da criação de gado para a gestão do território e para a prevenção dos incêndios rurais.
“As nossas raízes estão ligadas à agricultura e, cada vez mais, no âmbito da proteção da floresta e da prevenção dos incêndios, estamos a incentivar as pessoas a apostar na produção e, principalmente, na criação da raça arouquesa”, referiu.
O responsável adiantou que o Município pretende criar ferramentas complementares que permitam melhorar as condições das explorações agrícolas e apoiar a construção de abrigos adequados para os animais.
“Queremos dar aos mais jovens ferramentas para que não esqueçam as nossas raízes e para que a raça arouquesa continue a ser muito forte no nosso território”, acrescentou.
“Trabalhar em rede é fundamental”
A presidente da Assembleia Municipal de Vale de Cambra, Adriana Rodrigues, recordou ao Voz de Cambra que acompanha a Feira do Arestal desde criança, considerando que o evento faz parte da memória coletiva de várias gerações.
“Todos temos aqui memórias importantes associadas ao nosso crescimento e ao convívio com as nossas famílias e amigos”, afirmou.
Adriana Rodrigues destacou a localização do evento na zona alta do concelho e a cooperação estabelecida há vários anos entre freguesias, cooperativas e os municípios de Vale de Cambra e Sever do Vouga.
“Trabalhar em rede é fundamental para que os eventos possam ter sustentabilidade. Uma iniciativa desta natureza, que se realiza há tantos anos, é também o resultado deste esforço conjunto”, sublinhou.
A responsável defendeu uma aposta ainda mais forte no setor primário e na valorização dos produtos endógenos, identificando a raça arouquesa como uma das fileiras estratégicas para o território.
Segundo Adriana Rodrigues, a Feira do Arestal e a Feira dos 16 constituem dois bons exemplos de iniciativas capazes de valorizar a agricultura e os produtos locais, atraindo turistas, emigrantes, jovens e crianças.
“É extraordinário vermos tanta juventude e tantas crianças, porque é uma forma de lhes mostrarmos a nossa identidade”, considerou.
Na qualidade de deputada à Assembleia da República, Adriana Rodrigues referiu ainda a importância de fazer chegar aos agricultores informação sobre programas e apoios destinados ao setor.
“Muitas vezes, os investimentos não chegam por desconhecimento. Os presidentes de junta têm um papel fundamental, porque conhecem os agricultores, podem informá-los e ajudá-los a preparar candidaturas”, afirmou.
Sever do Vouga reafirma compromisso com a feira
O presidente da Câmara Municipal de Sever do Vouga, Pedro Lobo, salientou ao Voz de Cambra que a continuidade da Feira do Arestal é essencial para preservar tradições que fazem parte da identidade comum dos dois concelhos.
“É importante não deixarmos perder as tradições, porque fazem parte da nossa identidade”, defendeu.
O autarca mostrou-se particularmente satisfeito com a presença de pessoas mais jovens ligadas à criação e ao tratamento dos animais.
“Tem sido surpreendente ver pessoas muito jovens na feira, a tratar do gado e com interesse em não deixar cair estas tradições”, revelou.
Pedro Lobo assegurou que o Município de Sever do Vouga continuará a apoiar a iniciativa e as entidades envolvidas na sua concretização. Recordou também que a autarquia dispõe de um regulamento de incentivo à criação de bovinos das raças arouquesa e marinhoa.
“É importante mantermos esta tradição e esta atividade económica ligada à carne da raça arouquesa, que é muito apreciada”, acrescentou.
O vice-presidente da Câmara de Sever do Vouga, Hermínio Martins, classificou como “salutar” a cooperação mantida ao longo dos anos entre os dois municípios, considerando-a fundamental para garantir o futuro da raça.
“Só através desta cooperação conseguimos que a raça perdure no tempo e tenha cada vez mais apreciadores e produtores”, afirmou.
Apesar dos incentivos existentes, Hermínio Martins lamentou que o número de agricultores dedicados à criação da raça arouquesa continue abaixo do desejável em Sever do Vouga mas mantém a esperança que aumente em breve.
“Temos um regulamento próprio para apoiar os produtores e gostaríamos muito de atribuir mais apoios a quem se candidatasse. Fazemos o nosso papel para que esta raça se mantenha”, referiu.
Concurso reconhece trabalho dos criadores
Luís Almeida, fundador e membro da Confraria da Raça Arouquesa, destacou o significado da Feira do Arestal para os objetivos de divulgação e preservação assumidos pela instituição.
“Este evento representa a preservação daquilo a que nos propomos, que é divulgar e proteger a raça arouquesa”, explicou.
Segundo o confrade, o concurso constitui o culminar do trabalho desenvolvido pelos criadores das zonas serranas, território onde a raça tem uma forte presença e que integra o denominado Solar da Raça Arouquesa.
“O prémio é uma pequena recompensa, mas, sobretudo, um reconhecimento do valor das pessoas que se dedicam à preservação e à divulgação da raça”, salientou.
Luís Almeida alertou ainda para a importância da agricultura na fixação das populações e na manutenção das comunidades rurais.
“Esta atividade está ligada à identidade do território e é muito importante para a fixação da população. Sem este tipo de atividades, estas zonas dificilmente terão futuro”, advertiu.
A Confraria da Raça Arouquesa tem marcado presença em eventos realizados em vários pontos do país, procurando divulgar as características desta carne autóctone, aumentar o seu consumo e valorizar o trabalho diário dos agricultores.
Com uma elevada participação de público e de representantes dos dois concelhos, a edição de 2026 voltou a confirmar a Feira do Arestal como um espaço privilegiado de preservação da memória rural, promoção da raça bovina arouquesa e cooperação entre territórios vizinhos.




