A Casa do FC Porto de Vale de Cambra homenageou, esta sexta-feira, Rui Filipe, precisamente no dia em que se assinalaram 32 anos sobre a morte do antigo futebolista valecambrense. O vice-presidente do FC Porto, Francisco Araújo, o antigo jogador Rui Barros e o ex-capitão João Pinto marcaram presença numa cerimónia onde as memórias ultrapassaram o futebol. Entre elas, a de João Pinto, que recordou os jogos de cartas com o antigo companheiro e as visitas a casa da mãe de Rui Filipe para comer “uns cozidos”.
Cristina Maria Santos
Trinta e dois anos depois da morte de Rui Filipe, Vale de Cambra voltou a recordar um dos maiores nomes da história desportiva do concelho. A homenagem, promovida pela Casa do FC Porto de Vale de Cambra, realizou-se esta sexta-feira, 28 de agosto, e reuniu representantes do clube, antigos jogadores, autarcas, antigos presidentes da Casa, sócios e simpatizantes.
O FC Porto fez-se representar pelo vice-presidente Francisco Araújo, Rui Barros e por João Pinto, antigo capitão dos dragões e companheiro de Rui Filipe. A presença da comitiva quis também demonstrar que, mais de três décadas depois, a memória do futebolista permanece viva no clube onde se afirmou.
“O Rui Filipe tem uma grande importância”, afirmou Francisco Araújo ao Voz de Cambra, salientando que a viagem até Vale de Cambra, feita na companhia de João Pinto, lhe permitiu voltar a perceber a dimensão que o antigo jogador teve junto de quem com ele conviveu.
“Deu para perceber a importância que o Rui tinha, não só enquanto jogador, mas enquanto homem também”, referiu o vice-presidente portista, destacando “o carinho que todos nutriam por ele” e recordando o percurso de um atleta que, depois de períodos de empréstimo, conseguiu “agarrar a posição dele e afirmar-se no clube”.
Francisco Araújo lembrou ainda que a memória de Rui Filipe permanece inscrita no próprio FC Porto, através de uma homenagem existente junto ao Estádio do Dragão, onde é recordado juntamente com Pavão. Para o dirigente, a deslocação a Vale de Cambra representa também a forma de a atual direção do clube se associar à evocação.
“A nossa presença aqui é, de certa maneira, também a nossa maneira de prestar a homenagem”, sublinhou, explicando que trouxe uma coroa de flores para ser depositada no cemitério, gesto que, considerou, “ilustra bem a importância que o Rui tem para todos nós”.
Dos “cozidos” em casa da mãe aos jogos de cartas
Mas foi nas memórias pessoais de João Pinto que Rui Filipe voltou, por momentos, a surgir para além do futebolista que os adeptos conheceram dentro das quatro linhas.
O antigo capitão do FC Porto partilhou o balneário e o campo com o valecambrense e não tem dúvidas de que a homenagem, 32 anos depois, diz muito sobre a pessoa que Rui Filipe foi.
“Não é preciso responder. Passados tantos anos de ele nos ter deixado, ainda hoje é lembrado. É sinal de que, como pessoa, era uma pessoa espetacular. Como profissional, era um profissional íntegro e todos nós, colegas dele, gostávamos muito dele”, afirmou ao Voz de Cambra.
João Pinto recordou também momentos passados em Vale de Cambra, longe dos estádios e da pressão da competição. “Vínhamos várias vezes, durante a semana, a casa da mãe comer uns cozidos. E ele sempre com um sorriso e sempre disposto a contribuir também para a nossa felicidade”, contou.
E houve ainda espaço para uma história de balneário que trouxe à homenagem um lado mais descontraído da personalidade de Rui Filipe. Os jogadores tinham por hábito jogar às cartas, incluindo nas concentrações que antecediam os encontros.
“Mesmo no dia dos jogos, na véspera dos jogos, jogávamos às cartas. Eu, no domingo de manhã, se o Porto jogasse à noite, ia ao quarto dele, puxava-lhe os lençóis para ele jogar, para ver se recuperava algum. E ele nunca dizia que não”, recordou João Pinto.
Pequenos episódios que, para o antigo internacional português, permanecem intactos na memória. “São coisas que marcam. E eu, como muitas pessoas, nunca me esquecerei dele”, concluiu.
Do AD Valecambrense às Antas
A homenagem teve também um significado particular por decorrer na terra onde Rui Filipe nasceu, a 8 de março de 1968, e onde começou a construir o percurso que o levaria ao mais alto nível do futebol português.
Antes de vestir a camisola azul e branca, Rui Filipe deu os primeiros passos no futebol no AD Valecambrense. Na cerimónia esteve presente aquele que foi o seu primeiro treinador, conhecido por Pelé, responsável pelas camadas jovens do clube, cujos atletas chegaram a ser conhecidos como os “Pélezinhos”.
O antigo treinador recordou que começou a acompanhar Rui Filipe quando este tinha apenas oito anos e manifestou o orgulho de o ter visto crescer e tornar-se no atleta que viria a ser.
Rui Filipe chegou ao FC Porto em 1984 e, depois de passagens por empréstimo pelo Gil Vicente e pelo SC Espinho, regressou às Antas e afirmou-se na equipa principal. Internacional português, conquistou três campeonatos, três Supertaças e uma Taça de Portugal pelos dragões.
Quando morreu, aos 26 anos, num acidente de viação ocorrido a 28 de agosto de 1994, atravessava um dos melhores momentos da carreira. Tinha marcado frente ao SC Braga o primeiro golo do campeonato que viria a iniciar o histórico ciclo do pentacampeonato portista e havia também feito o gosto ao pé frente ao Benfica, no Estádio da Luz.
“Uma das figuras mais relevantes da história desportiva do concelho”
A dimensão de Rui Filipe para Vale de Cambra foi igualmente destacada pelos representantes autárquicos presentes.
A presidente da Assembleia Municipal, Adriana Rodrigues, considerou que a homenagem assinalou os 32 anos do desaparecimento de “uma das figuras mais relevantes da história desportiva” de Vale de Cambra.
“Não é todos os dias que nasce e se forma no nosso concelho uma personalidade com estas características e com este dom”, afirmou, recordando também o impacto que a morte e o funeral do jogador tiveram na comunidade valecambrense.
“É com grande saudade que o recordamos, é com grande respeito e consideração que assinalaremos todos os anos o facto de termos tido um desportista e um ser humano da qualidade do Rui Filipe”, acrescentou, agradecendo à Casa do FC Porto por continuar a manter viva a sua memória.
Também o presidente da Câmara Municipal, André Martins da Silva, destacou a dimensão alcançada pelo antigo jogador, considerando que, passadas mais de três décadas, Rui Filipe continua a ser “provavelmente, o maior atleta” da história de Vale de Cambra.
O autarca, que revelou ter uma ligação familiar a Rui Filipe, agradeceu igualmente ao FC Porto a disponibilidade que, ao longo dos anos, tem demonstrado para participar nas iniciativas relacionadas com o antigo futebolista.
Para André Martins da Silva, a capacidade de continuar a reunir, 32 anos depois, dirigentes e figuras ligadas ao clube demonstra “a importância que o Rui Filipe teve no Futebol Clube do Porto” e em Vale de Cambra.
Casa quer continuar a manter viva a memória
Domingos Silva, presidente da Casa do FC Porto de Vale de Cambra, agradeceu a presença dos representantes do clube, autarcas, associados e simpatizantes e destacou o trabalho desenvolvido pela direção para manter a Casa aberta à comunidade.
“Muito obrigado por estarmos aqui a fazer uma grande homenagem a um grande atleta que foi de Vale de Cambra”, afirmou.
Entre os presentes estiveram ainda antigos presidentes da Casa do FC Porto de Vale de Cambra, sócios e simpatizantes, o vice-presidente da Câmara Municipal, Sérgio Soares, e o presidente da Junta de Freguesia de S. Pedro de Castelões, Carlos Tavares, entre outros convidados.
Mais do que recordar os títulos ou os golos, a tarde acabou, contudo, por revelar sobretudo a memória do homem que ficou entre aqueles que o conheceram: o amigo que recebia os colegas em Vale de Cambra, que sorria, que nunca recusava um jogo de cartas e que, 32 anos depois, continua a ser lembrado na sua terra e no FC Porto.


