Os atuais presidentes dos seis municípios inauguraram, esta sexta-feira, um mural que assinala os 40 anos da Associação de Municípios das Terras de Santa Maria e retrata a diversidade e identidade do território, da serra ao mar, das tradições à indústria. A cerimónia, em S. João da Madeira, homenageou também os autarcas que fizeram parte destas quatro décadas de história, numa celebração marcada pela defesa de uma cooperação intermunicipal cada vez mais forte.
Cristina Maria Santos
Quarenta anos de história, seis municípios e uma ideia que atravessou praticamente todas as intervenções: juntos, os territórios conseguem ter mais força para enfrentar problemas comuns e preparar o futuro. Foi neste ambiente que a Associação de Municípios das Terras de Santa Maria (AMTSM) comemorou, esta sexta-feira, o seu 40.º aniversário, numa cerimónia realizada no edifício-sede da instituição, em S. João da Madeira.
Arouca, Espinho, Oliveira de Azeméis, S. João da Madeira, Santa Maria da Feira e Vale de Cambra estiveram representados numa celebração que reuniu atuais e antigos presidentes de Câmara, autarcas, antigos responsáveis da Associação, trabalhadores, representantes de diferentes instituições e familiares de autarcas já falecidos.
Um dos momentos simbólicos das comemorações foi a inauguração de um mural alusivo aos 40 anos da AMTSM, descerrado conjuntamente pelos atuais presidentes das seis Câmaras Municipais.
A obra reúne imagens e elementos relacionados com a identidade de cada concelho, procurando representar a diversidade económica, paisagística, histórica e cultural das Terras de Santa Maria.
Vale de Cambra surge representado através da metalurgia, dos seus vales e das suas tradições, numa ligação entre a forte componente industrial e empresarial do concelho e as características naturais e culturais que marcam o território.
Também no momento de entrega das lembranças aos homenageados houve uma representação simbólica de cada município através de jovens vestidos com trajes ou elementos evocativos das respetivas identidades. Vale de Cambra foi representado por um jovem vestido de metalúrgico, numa referência a uma atividade profundamente ligada à história económica e industrial do concelho.
Quatro décadas construídas por diferentes gerações de autarcas
A comemoração teve como outro dos seus momentos centrais a homenagem aos autarcas que, ao longo destas quatro décadas, estiveram à frente dos municípios que atualmente integram a Associação, incluindo os que já faleceram, representados por familiares.
No caso de Vale de Cambra, marcaram presença os antigos presidentes da Câmara Luís Gonçalo, José Bastos e José Pinheiro, assim como o atual presidente, André Martins da Silva, que é também vogal do Conselho Diretivo da AMTSM. António Fonseca não pôde estar presente.
A memória do antigo presidente Eduardo Coelho, já falecido, esteve igualmente representada. A homenagem foi recebida pelo filho, João Coelho, acompanhado pela mãe, Cristina Coelho, viúva do antigo autarca.
A cerimónia procurou, desta forma, reconhecer os diferentes responsáveis políticos que, em sucessivos momentos da história dos seis municípios, contribuíram para construir e consolidar o percurso comum da Associação.
“Juntos somos mais fortes”
Na intervenção que marcou as comemorações, Joaquim Jorge, presidente do Conselho Diretivo da AMTSM, recordou algumas das conquistas alcançadas ao longo de quatro décadas e apontou os desafios que considera deverem marcar o futuro da instituição.
O responsável destacou projetos desenvolvidos pela Associação, assim como o investimento realizado nos últimos anos na modernização das respostas, nos recursos humanos, na formação e capacitação das equipas, nas ferramentas tecnológicas e na própria comunicação e identidade da instituição.
Mas foi sobretudo para o futuro que Joaquim Jorge dirigiu a sua intervenção, defendendo que a AMTSM deverá decidir se pretende permanecer essencialmente como uma estrutura prestadora de determinados serviços ou aproveitar o potencial dos seis municípios para desenvolver políticas públicas comuns.
Entre as áreas em que considera possível aprofundar essa cooperação apontou o ordenamento do território, a mobilidade, a saúde, a proteção civil e a inovação social, tendo como objetivos tornar o território mais atrativo e competitivo e melhorar a qualidade de vida das populações.
Joaquim Jorge destacou ainda a diversidade existente dentro da própria Associação. Entre os seis municípios há mar, serra, rios, campo, indústria, turismo, gastronomia e património natural e construído, características que, na sua perspetiva, constituem o maior ativo do território.
O presidente do Conselho Diretivo salientou ainda a capacidade que diferentes presidentes de Câmara e executivos municipais tiveram, ao longo dos anos, de colocar de lado divergências em torno de um objetivo comum.
“Juntos somos mais fortes”, resumiu.
Vale de Cambra: serra, tradição, indústria e capacidade empresarial
A ideia da diversidade como elemento de união esteve também presente na intervenção de Margarida Belém, presidente da Câmara Municipal de Arouca e presidente da Assembleia Intermunicipal da AMTSM.
“40 anos são mais do que uma data, são uma história de pessoas, de vontades e de confiança”, afirmou, salientando que diferentes presidentes, executivos e gerações de autarcas souberam compreender que existiam causas maiores do que cada município individualmente.
A autarca fez questão de estender o reconhecimento aos trabalhadores da Associação e dos seis municípios, lembrando que uma história como esta não se constrói apenas através dos presidentes de Câmara, vereadores ou decisões políticas, mas também através daqueles que diariamente concretizam, acompanham e articulam essas decisões.
Ao percorrer as características distintivas dos seis concelhos, Margarida Belém dedicou também uma referência a Vale de Cambra, destacando a sua ligação à serra, à terra e às tradições, a par da sua força industrial e empresarial.
“Não precisamos de ser iguais para caminharmos juntos. Precisamos é de saber aquilo que temos em comum”, afirmou.
Para a presidente da Assembleia Intermunicipal, desafios como a coesão territorial, mobilidade, sustentabilidade, valorização do território, competitividade económica e qualidade de vida não conhecem fronteiras municipais, justificando o reforço da capacidade de atuação conjunta.
André Martins da Silva: “A nossa força é maior e a nossa voz escuta-se mais longe”
A importância desta cooperação para Vale de Cambra foi igualmente destacada pelo presidente da Câmara, André Martins da Silva, em declarações ao Voz de Cambra, que acompanhou a cerimónia.
“Esta parceria que existe na Associação de Municípios é muito importante para Vale de Cambra porque, como foi dito na mensagem do ministro, os problemas resolvem-se melhor quando todos trabalhamos na mesma direção.”
Para o autarca, a integração numa estrutura que reúne seis municípios reforça a capacidade de intervenção do concelho.
“A Associação de Municípios permite-nos que a nossa força seja maior e, acima de tudo, que a nossa voz se escute mais longe e seja mais alta e que consigamos resolver os problemas que são comuns a todos os municípios. Para nós é muito importante termos esta força para poder resolvê-los de uma forma mais rápida e melhor para todos.”
Questionado sobre os desafios mais imediatos, André Martins da Silva destacou a área ambiental.
“Neste momento temos um grande desafio a nível ambiental. Tem muito a ver com aquilo que é a capacidade de dar resposta às necessidades dos municípios. Este é, precisamente, o nosso grande desafio.”
O presidente da Câmara considera, contudo, que o futuro da Associação deve ir além das áreas em que tradicionalmente tem concentrado grande parte da sua intervenção.
“Temos que olhar para o futuro e perceber que aquilo que é o trabalho feito nesta casa tem que ir muito para lá da área ambiental e do bem-estar animal.”
Ordenamento do território, captação de investimento e turismo são algumas das áreas em que André Martins da Silva identifica potencial para uma estratégia conjunta.
“Temos que passar a olhar para outras áreas em comum, do ordenamento do território, da captação de investimento, da parte turística, para conseguirmos potenciar o território comum todo, deixando de lado aquelas que são as diferenças de cada um dos territórios, mas olhando para o território comum todo para conseguirmos promover e alavancar este nosso território, que é fantástico e extraordinário.”
Ministro destaca uma das mais antigas experiências de associativismo municipal
O ministro da Economia e da Coesão Territorial, Castro Almeida, associou-se às comemorações através de uma mensagem gravada em vídeo.
O governante classificou a AMTSM como uma das mais antigas e duradouras experiências de associativismo municipal do país e salientou que quatro décadas de trabalho demonstraram que a cooperação permite encontrar melhores soluções para problemas comuns.
Castro Almeida, que no passado teve também responsabilidades na Associação, recordou decisões e projetos relacionados com sistemas de tratamento, recuperação de materiais e o Canil Intermunicipal, entre outras iniciativas.
“Há problemas que os municípios resolvem melhor quando trabalham em conjunto”, afirmou, identificando essa ideia como uma das grandes lições destes 40 anos.
O ministro prestou ainda homenagem a todos os presidentes de Câmara que fizeram parte da história da AMTSM, incluindo os já falecidos, e defendeu que a Associação deve agora olhar sobretudo para as próximas quatro décadas.
As pessoas, as famílias, as empresas, o emprego, a criação de riqueza, o movimento associativo e a vitalidade das comunidades foram algumas das dimensões que destacou, defendendo igualmente uma boa articulação entre o Governo e o poder local.
Santos Costa recorda 42 anos ligados ao território
As comemorações abriram também espaço à memória da própria instituição, através de um momento de conversa que juntou antigos responsáveis da AMTSM.
À mesa sentaram-se Santos Costa e António Teixeira, este último antigo autarca de Espinho e que presidiu à Associação durante dois anos. A conversa foi moderada pela atual secretária-geral, Teresa Pouzada.
Santos Costa recordou um percurso profissional de 42 anos, repartido entre o Gabinete de Apoio Técnico e a Associação de Municípios.
Numa intervenção marcada pela emoção, rejeitou a ideia de ter feito algo excecional e salientou que procurou cumprir aquilo que considerava ser a sua responsabilidade.
“Passei aqui e deixei um bocado da minha vida, mas foi um privilégio”, afirmou, recordando que teve a oportunidade de trabalhar durante décadas numa área de que gostava e agradecendo a relação mantida com as diferentes gerações de autarcas.
Teresa Pouzada reconheceu publicamente o legado deixado pelo antigo secretário-geral, salientando a sua disponibilidade para continuar a ajudar a instituição e recordando que encontrou uma equipa bem formada, cuja experiência constitui uma base importante para dar continuidade ao trabalho realizado.
A atual secretária-geral terminou pedindo uma salva de palmas para Santos Costa, associando o seu percurso ao legado que a Associação procurou homenagear neste 40.º aniversário.
Uma Associação que começou com dois municípios
A Associação de Municípios das Terras de Santa Maria foi constituída por escritura pública a 12 de setembro de 1985, pelos municípios de Oliveira de Azeméis e S. João da Madeira, cidade onde atualmente mantém a sua sede, no edifício Villa Balbina.
Vale de Cambra aderiu em 1993, seguindo-se Arouca e Santa Maria da Feira, em 2000. Espinho juntou-se ao agrupamento em 2016, completando a atual configuração de seis municípios.
O território conjunto encontra-se a norte do distrito de Aveiro, entre os rios Douro e Vouga, e apresenta fortes relações de proximidade e complementaridade nos domínios industrial, comercial e turístico, mas também em áreas como a saúde, o ensino e a etnografia.
A região apresenta uma forte predominância do setor secundário e da indústria transformadora. Se Santa Maria da Feira se destaca historicamente pela cortiça e S. João da Madeira, Oliveira de Azeméis e Santa Maria da Feira pelo calçado, Vale de Cambra e Oliveira de Azeméis assumem particular relevância nas áreas da metalomecânica, moldes e outras indústrias transformadoras.
Trata-se, assim, de um território simultaneamente diverso e complementar, condição que esteve no centro das mensagens deixadas durante as comemorações.
O programa teve início pelas 17h00, com a receção dos convidados, seguindo-se uma sessão de boas-vindas com música ao vivo. A cerimónia de homenagens decorreu a partir das 18h30 e as comemorações terminaram com um cocktail e Sunset Party.
Quatro décadas depois da criação da Associação — e 33 anos depois da adesão de Vale de Cambra — o mural agora inaugurado pretende deixar visível essa história comum: seis municípios com identidades próprias, mas unidos pela convicção de que a cooperação lhes permite ter uma voz mais forte e maior capacidade para responder aos desafios do território.





